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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Por que ler literatura

Montagem maldosa mas pra lá de verossímil.



“O brasileiro não lê”; lugar-comum usado e abusado. Todavia, esse é um problema menor. Pior do que não ler é ler errado. Por aqui, os mais letrados vão pouco além de bibliografias especializadas de suas áreas de pesquisa e atuação profissional. Entre quem se envolve com política, desde os meramente interessados até os protagonistas, lê-se, creio, mais do que a média, mas não como se deveria. Em geral, até temos contato com materiais de qualidade; mas são ensaios, estudos, análises; e muito disso é tradução. Lemos pouquíssima literatura de língua portuguesa, de quem escreve realmente bem em português. E este é um fato problemático em demasia, porque é com os clássicos de nossa língua que aprendemos a escrever e obtemos as ferramentas com as quais interpretamos a realidade. (Não é por acaso que dentre um grupo amplamente politizado – a, digamos, “nova direita” – se considere literatura de qualidade a obra “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand, que não passa de uma ficção panfletária, sendo, portanto, qualquer coisa, menos literatura – e a qualidade atribuída fica por conta de um adesismo simplista, cujo fundo são os resquícios da mentalidade revolucionária predominante.)

Além de prejudicar-nos no uso da língua, a falta de literatura é um problema – já amplamente imperceptível – mesmo para a compreensão sociológica, para as análises políticas, para pensar criticamente a respeito do que quer que seja. Desenvolvemos na escola a capacidade de sermos críticos, mas não nos dão as ferramentas para isso. Nossas crianças sabem separar o lixo e respeitar as “diversidades”, mas não conseguem sequer organizar seus pensamentos a respeito disso; saem da escola prontas para passar a vida vagando por aí, a dar opiniões sobre tudo, sem entender nada, limitando-se, sem perceber, a repetir chavões e esquemas pré-fabricados, entregues pela escola e pela mídia. Aos 12 anos de idade, o degas houve um professor descolado dizer que a Igreja matou cinco trilhões de pessoas e, como a coisa soa bem aos ouvidos rebeldes da juventude, leva a história para o resto da vida. Julga-se, então, um grande crítico da opressão religiosa, sendo incapaz, contudo, de articular sua crítica em uma frase de duas orações. É apenas um exemplo. O Brasil é um país de semi-analfabetos que, porém, acreditam-se especialistas em tudo.

Contudo, mesmo no referido grupo reduzido de pessoas um pouco mais instruídas, interessadas em política, a situação não muda muito – ao menos no que diz respeito à apreensão da realidade. Os ensaios, as críticas e as análises (geralmente a respeito da ordem do dia) que compõem o escopo de estudo desse nicho dizem respeito a fatos, a acontecimentos, a experiências reais. Entretanto, a tendência é que esses acontecimentos não sejam integralmente compreendidos, pela simples razão de que consumimos análises sem antes havermos adquirido base experiencial. Refletimos, então, a respeito de coisas que não entendemos verdadeiramente. Contemplar o o quê dos fatos históricos sem sequer desconfiar do como é perda de tempo, é “úlcera mental” (ou seja, é uma "digestão" sem ter o que digerir). Não é por acaso que o professor Olavo de Carvalho dedica a primeira parte de seu curso de Filosofia para explicar que, antes de darmos pitacos sobre qualquer coisa ou sairmos estudando Filosofia, é fundamental que leiamos muita literatura, porque é ela a base para a compreensão dos fatos da realidade.

Os fatos são obras de pessoas reais. Então, por mais que nos detenhamos em análises políticas várias, estaremos sempre na superfície dos problemas se não tivermos ao menos uma pista das pessoas reais que protagonizaram os fatos analisados. E como conseguimos isso, se jamais conheceremos todos os agentes históricos e contemporâneos? Temos de ir atrás dos padrões, dos símbolos, das representações. E há duas formas de formar esse imaginário geral que nos guiará nas situações específicas que queremos compreender e criticar. Uma, a melhor delas, é adquirindo experiência real. O problema é que estamos limitados no tempo e no espaço; antes de vivermos, muita coisa já aconteceu; e, mesmo enquanto vivemos, não presenciaremos mais do que uma porção infinitesimal dos fatos que virarão história. Isso é muito óbvio – a experiência direta nos permite entender o mundo de forma geral e abstrata, mas não nos oferece material suficiente para entender as particularidades históricas. Para isso existe a literatura. Falo da boa literatura, é claro; do que é conhecido por "clássicos". Essa literatura, que jamais deixará de ser lida, contém a estabilização, o registro da realidade em que foi concebida. Os grandes poetas e prosadores nada mais são do que gente que viveu e viu tudo exatamente da mesma forma que todos a seu redor viveram e viram. O que os diferencia é a capacidade de dizer, de registrar, de narrar o que todos a seu redor viveram e viram – tanto de forma geral, quando tratam do ser humano, como de forma específica, quando tratam dos seres humanos inseridos em contextos históricos, geográficos e sociais.

A literatura, portanto, nos ensina a escrever; mas o principal é que nos ensina a pensar, a compreender a realidade; é o fundamento do caminho para o verdadeiro conhecimento. Por isso, deixem para ler os jornais do dia, as notícias e as opiniões depois de ler algumas páginas de literatura. Falo isso em termos gerais (para que coloquemos a formação literária em primeiro lugar) e específicos, em termos de rotina – comece o dia lendo literatura antes de ler jornais. Com o Julién Sorel de Sthendal, o Policarpo Quaresma de Lima Barreto, O Raskolnikov de Dostoievski e o Bentinho de Machado de Assis entenderemos com muito mais facilidade os Zé Trambique e os João Sem Braço do nosso dia-a-dia. Podem apostar! Com uma boa base literária é possível parar de perder tempo com fatos jornalísticos ordinários, repetitivos e enfadonhos, porque o sujeito fica treinado para compreender as situações específicas a partir dos substratos gerais adquiridos. Bastarão as manchetes e detalhes imprescindíveis e sobrará tempo para estudos muito mais úteis e importantes.

Recentemente, o Olavo publicou isto:

“Por caridade, não deixem a língua portuguesa do Brasil se estragar ainda mais. Estudem a boa e velha "Gramática Metódica" do Napoleão Mendes de Almeida, leiam José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Leo Vaz, Herberto Sales, Gustavo Corção e Marques Rebelo e defendam o que é patrimônio cultural seu.”

Motivado por isso, escrevi-lhes a reflexão acima e ofereço-lhes a lista abaixo, com títulos de excelência da literatura portuguesa, para que, em primeiro lugar, escrevamos cada vez melhor; e, além disso, entendamos melhor esse ser tão peculiar que é o brasileiro:

CAMILO CASTELO BRANCO
Amor de perdição (1862)

MACHADO DE ASSIS
Toda a obra

JOSÉ GERALDO VIEIRA
A Mulher que Fugiu de Sodoma (1931)
A Ladeira da Memória (1949)
O Albatroz (1951)

GRACILIANO RAMOS
São Bernardo (1934)
Vidas Secas (1938)
Infância (1945)
Memórias do Cárcere (1953)

GUSTAVO CORÇÃO
A Descoberta do Outro
Lições de Abismo
O Século do Nada

MARQUES REBELO
Marafa (1935)
A Estrela Sobe (1939)
Três Caminhos (1933)



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