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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Como fazer inimigos e incomodar pessoas


Após a definição de que Donald Trump será o novo presidente da América, escrevi um artigo especialmente para quem ficou apavorado, com o coração machucado, e emitiu opiniões valiosíssimas, do tipo “Ain, zentsi, para o mundo que eu quero desce’ãm! Trump??? Alô-ôu!” Leia aqui: http://bit.ly/2fUb1UP.

Resultados após 24 horas da postagem.

Por causa desse artigo, que acabou “viralizando”, muitos leitores meus (mais de cinco, quase sete) vieram perguntar-me: “COMO SE ESCREVE UM TEXTOS DESSES?” Realmente, é uma questão interessante, pois não se refere apenas à qualidade do texto, a seu conteúdo e sua forma; refere-se, sobretudo, a seu resultado, ao nível de “engajamento” atingido, às dezenas de milhares de pessoas que se sentiram tocadas e se identificaram com o escrito.

Bom, há várias técnicas e estratégias para gerar “engajamento” do público. Conheço algumas, mas não sou usuário de nenhuma, exceto desta: falar a verdade, o que, em essência, nem é estratégia. Não é tão simples executar quanto o é dizer; mas o fundamento é simples, o fim é esse, ponto; dos meios, falaremos adiante. O fato é que o verdadeiro escritor, assim como o verdadeiro filósofo, não é um grande inventor, não é um gênio do impossível. O que ele faz é tão-somente organizar, estabilizar as verdades que, de alguma forma, circulam na alma de cada um e que são acessíveis a todos. A reação que o verdadeiro escritor busca em seu público não é: “Puxa, eu jamais pensaria nisso!?”, mas: “Puxa, é exatamente isso que eu penso, mas não sabia como dizer!” A mensagem que entra e permanece nas mentes e nos corações não é aquela que diz o que o leitor jamais haveria dito; é aquela que diz o que o leitor sempre quis dizer mas nunca conseguira.

Vivemos apressados, atabalhoados, sem prestar a devida atenção a nossas experiências, sem organizar os muitos dados que a realidade nos oferece. Contudo, nossa alma não cessa de captar informações várias; vai jogando tudo para dentro, como em um depósito de um acumulador compulsivo. Algumas pessoas até chegam a vislumbrar a unidade disto ou daquilo em sonho ou revelação divina, mas são poucos os afortunados. A maioria passa a vida sem organizar esse estoque, sem estabilizar o conjunto de realidades em uma verdade apreensível. O que o verdadeiro escritor faz é entrar nesse depósito e empilhar tudo direitinho, pegar cada informação que está jogada, colocá-la em seu devido lugar, relacioná-la com outras e organizar tudo em prateleiras asseadas e contempláveis.

É para isso que devemos refletir a respeito das coisas – para conseguir organizar ao menos uma ou outra prateleira de nosso imenso depósito mental, apreendendo a verdade disto ou daquilo. Se tivermos dom e treinamento, conseguiremos estabilizar uma ínfima parte dessas ínfimas compreensões em escritos e, então, faremos algumas pessoas dizer: “Eureka! Era exatamente isso o que eu queria dizer!”

Atingir esse resultado é coisa rara. Eu jamais conseguira obtê-lo com tanta gente ao mesmo tempo; e não me surpreenderei se não voltar a obtê-lo. Acontece que, a despeito de as verdades (que conformam o Logos divino) estarem acessíveis a todos, jamais contemplaremos a unidade real de tudo; não nesta vida. Pretender fazê-lo é estupidez; tentar é loucura. Por isso que Sócrates, modelo de todos que querem entender as coisas, apesar de haver entendido muito, disse: “Só sei que nada sei.”

Mas, enfim, é possível, de vez em quando, acertar na mosca. Eis o, digamos, caminho que tenho trilhado, sob a orientação do professor Olavo de Carvalho (e seu Curso de Filosofia) e à imitação dos grandes:


Formação do imaginário – experiência e literatura

Os fatos a que nos referimos em um texto são obras de pessoas reais. Temos, portanto, de entender esses agentes e seus contextos, sua realidade. E como conseguimos isso, se jamais conheceremos todos os agentes históricos e contemporâneos nem todas as conjunturas existentes? Temos de ir atrás dos padrões, dos símbolos, das representações. E há duas formas de formar esse imaginário geral que nos guiará nas situações específicas que queremos compreender e criticar. Uma, a melhor delas, é adquirindo experiência real; vivendo de forma atenta, reflexiva, para além do automatismo. O problema é que, mesmo que treinemos para isso, estamos limitados no tempo e no espaço; antes de vivermos, muita coisa já aconteceu; e, mesmo enquanto vivemos, não presenciaremos mais do que uma porção infinitesimal dos fatos que virarão história. Isso é muito óbvio – a experiência direta nos permite entender o mundo de forma geral e abstrata, mas não nos oferece material suficiente para entender as particularidades históricas. Para isso existe a literatura. Falo da boa literatura, é claro; do que é conhecido por "clássicos". Essa literatura, que jamais deixará de ser lida. Seu conteúdo é justamente a estabilização a que me referi no início deste artigo, é o registro da realidade em que foi concebida. Os grandes poetas e prosadores nada mais são do que gente que viveu e viu tudo exatamente da mesma forma que todos a seu redor viveram e viram. O que os diferencia é a capacidade de dizer, de registrar, de narrar o que todos a seu redor viveram e viram.

Além disso, a literatura nos ensina a escrever. Nas gramáticas temos os porquês a respeito das estruturas da língua, mas é nos cânones literários, nos muitos estilos e formas disponíveis, que aprenderemos a nos comunicar com eficiência e qualidade. Contudo, o principal sobre a literatura é que ela nos ensina a pensar, a compreender a realidade; é o fundamento do caminho para o verdadeiro conhecimento. Se articularmos essa base com uma experiência desperta, atenta, com uma contemplação permanente da realidade, estaremos muito próximos de, com sorte, atingir os corações e as mentes, falar aquilo que as pessoas de alguma forma já sabem e pensam, mas não podem expressar. Aliás, com sorte não; com graça.


Objeto e objetivo
Não estude nem se prepare para falar ou escrever. Isso é decorrência, é possibilidade advinda de competências adquiridas. Estude para entender o objeto de seu estudo, para conhecê-lo de fato, para acessar a verdade que há nele.


Acúmulo de informações específicas e gerais

Além de muita leitura literária, é indispensável acumular dados a respeito do objeto de interesse. É até estranho escrever isso, porque é algo muito óbvio; mas é tão óbvio quanto ignorado; se não o fosse, eu não precisaria escrever o artigo a respeito de Donald Trump, que ensejou este texto aqui. E não basta ler notícias ordinárias a respeito do objeto de seu interesse; é necessário aprofundar a compreensão, estudar a universalidade em que o objeto está inserido. Por exemplo: o caminho completo para compreender eventos políticos contemporâneos vai do detido estudo das teorias políticas à dinâmica, porém atenta, leitura de artigos e notícias atuais a respeito do seu objeto de interesse. Com isso, quando o insight vier, você estará pronto para estabilizá-lo em texto ou fala. Sem isso, você será como um músico criativo, mas sem habilidades desenvolvidas, que concebe maravilhosas composições em sua mente mas não consegue executá-las.


Graça
Sem Deus nada é possível. N’Ele tudo está e d’Ele tudo vem. Pode ser que haja quem consiga algo sem recorrer a Deus (jamais sem Deus; isso é impossível); eu não consigo – já tentei, por um tempo no passado, e falhei, miseravelmente. “Primeiro, oração; depois, expiação; em terceiro lugar, muito em ‘terceiro lugar’, ação” – São Josemaría Escrivá.


***

Enfim, para fazer inimigos e incomodar pessoas, basta encontrar a verdade e, depois, pronunciá-la. No início, pode ser que não sobrem muitos à sua volta, mas valerão incomensuravelmente mais do que os que se afastarem. E, depois que você tiver por hábito essa relação inegociável com a verdade, o "engajamento" e as "viralizações" serão conseqüências – muito menos importante do que se pode supor.

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