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domingo, 14 de fevereiro de 2016

O machismo cristão

Eis que Cristo apresenta a Nova Lei:

– Não pensei que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas consumar.

O que Cristo faz é consumar e radicalizar:

– Ouvistes o que foi dito aos antigos: não matarás; quem matar, será réu de julgamento. Pois eu vos digo: quem se encolerizar contra seu irmão, será réu de julgamento.

Ou seja, Jesus deixa claro que mesmo erros menores podem receber a grande punição, pois essas pequenas ofensas se enraízam no coração do homem e semeiam o campo para os grandes erros. O antigo mandamento de não matar é radicalizado e passa a exigir que nem sequer se magoe o irmão. Por isso, aliás, que o exame de consciência, etapa anterior à confissão sacramental, é tão importante; não basta analisar a letra fria e abstrata dos Dez Mandamentos; é preciso analisar nossas ações reais à luz de cada Mandamento, contemplando suas centenas de implicações menores.

É nesse sentido que surge uma das maiores provas de que, se o cristianismo é machista, é no sentido de proteger a mulher na máxima potência (ou seja, não é machista de forma alguma):

– Ouvistes o que foi dito: não cometerás adultério. Pois eu vos digo: todo aquele que lançar um olhar de cobiça sobre uma mulher, já cometeu adultério em seu coração.

Se essas palavras são duras aos homens de hoje, imagine dois mil anos atrás. Um “mero” olhar, uma simples “olhadinha”, é suficiente para nos distanciar gravemente de Deus. Obviamente, como sempre, não se trata de uma ordem arbitrária e abstrata, mas de uma recomendação que leva em consideração a realidade das coisas. O homem, o macho, é, digamos, extremamente visual. Nossos estímulos sexuais mais fortes vêm pelos olhos. Talvez vocês não saibam, mulheres, mas quando, em ato sexual com uma mulher desprovida de beleza, é quase regra que o homem visualizará mentalmente uma mulher que lhe agrade mais; do mesmo modo, quando precisa, pelo motivo que seja, evitar um estado de excitação, tratamos de imaginar algo visualmente desagradável. Sendo o sentido da visão algo tão grave para nós, homens, que Cristo faz, a fim de que não plantemos pecados graves com as sementes dos pecadinhos?

– Se teu olho direito te escandaliza, corta e joga longe de ti. Pois é preferível que pereça um de teus membros a que todo teu corpo seja lançado no inferno.

Para que não traiamos nem mesmo mentalmente a mulher e não ofendamos a Deus, Cristo ordena que arranquemos o olho! Mas não pára por aí.

– Também foi dito: quem repudiar sua mulher, dê-lhe certidão de divórcio. Pois eu vos digo: todo aquele que se divorciar de sua mulher – exceto em caso de “prostituição” – a induz ao adultério, e aquele que se casar com ela, comete adultério.

Perceba que a única possibilidade que o homem tem para não ofender a Deus é permanecer fiel e jamais romper o matrimônio. Se se divorciar, peca gravemente; com o divórcio, estará o homem induzindo a mulher ao adultério, o que é pecar gravemente; por fim, o homem que se unir à mulher abandonada também estará pecando gravemente. Nós, homens, somos culpados, com justiça, se abandonamos a mulher e se, por isso, ela mesma vier cometer adultério. Não é muito machismo?

O pior é que há quem responderá “Sim, é muito machismo!” à minha pergunta retórica e irônica. Em pleno século XXI, há quem considere ofensa gravíssima à honra feminina o ato de zelar, de ter extremo cuidado, de proteger uma mulher, de dar-lhe a segurança que ela naturalmente exige e que somente nós, homens, naturalmente somos capazes de dar. Com a graça de Deus, somos, homens e mulheres, incrivelmente diferentes – e nas tensões surgidas dessas diferenças nos completamos, crescemos e nos unimos a Deus, através de Cristo e da intercessão do ser humano puro mais perfeito já criado, Maria – que, não por acaso, é uma mulher.

Também não é por acaso que as pessoas que se ofendem com a constatação de que homens e mulheres são diferentes e que, por isso, mulheres devem ser tratadas de forma realmente distinta, são as mesmas que desejam corromper a mulher, através de um igualitarismo atroz. No prefácio da edição da Ecclesiae para a obra O que há de errado com o mundo, de G. K. Chesterton, o professor Rodrigo Gurgel faz um resumo preciso e brilhante do problema:

Chesterton sabia perfeitamente que “se as mulheres chegassem a ser ‘iguais’ aos homens, se envileceriam”, diz Joseph Pearce. É nossa realidade hoje. Como afirma Francisco José Contreras, “o tipo de sexualidade (banalizada, de consumo rápido, desvinculada do amor, do compromisso e da reprodução) parece desenhada à medida das necessidades e caprichos masculinos. As mulheres são as grandes vítimas da revolução sexual. Na sociedade hipersexualizada, a mulher se converte com freqüência em objeto de usar e jogar fora. As feministas conseguiram impor à mulher o modelo sexual masculino”. [...] “O neofeminismo converte as mulheres em ‘machos falidos’”.

Olhe em volta, para suas relações, para suas amigas com entre 20 e 40 anos totalmente perdidas, fragilizadas, rebaixadas, e me diga se não são de fato “as mulheres as grandes vítimas da revolução sexual”. A mulher de hoje é a grande vítima do feminismo, da libertação sexual. O caos é completo. Mulheres não se respeitam, seja porque esta é muito liberal, seja porque aquela é muito conservadora. Homens não respeitam mais as mulheres, seja porque esta “não deu” na primeira vez (e aí não têm paciência e a descartam), seja porque aquela “deu” de primeira (e aí “não serve para ser amada e respeitada” – e acaba sendo igualmente descartada). A mulher está atônita, não sabe mais como agir para conquistar um homem. Vê-se paralisada ante a percepção surpreendente de que não é transando de todas as formas possíveis na primeira noite que o homem lhe amará pela eternidade, a despeito de tudo que lhes disseram e prometeram por décadas os grandes gurus e especialistas em livros, revistas e programas de TV – “Cem formas de ganhar um homem na primeira transa”; “Não se reprima, faça tudo que você tiver vontade!”; “Seu corpo, suas regras”.

O antídoto para tanta loucura, como sempre, é a firme, simples e maravilhosa realidade. Basta não patrolar as evidências e respeitar as naturezas de homens e mulheres para saber como agir. Nossas percepções primeiras das coisas valem muito mais do que anos de problematizações ideológicas, que procuram adaptar a realidade ao ideário revolucionário. O deslumbramento infantil, puro e aparentemente bobo, que diz “Meninos têm pinto; meninas, não”, é muito mais cientificamente verdadeiro e filosoficamente assertivo do que todas as teorias modernas juntas. E não sou eu que estou dizendo – é a realidade, com o endosso de Nosso Senhor Jesus Cristo. E você, ainda dará ouvidos a pelancudas ressentidas?