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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Fascistas não passarão?

Uma das principais estratégias do revolucionário padrão está resumida na máxima atribuída ao ditador socialista Vladimir Lenin: “Xingue-os do que você é, acuse-os do que vocês faz.” Exemplo cruel – para nós, brasileiros – é o outrora autoproclamado “partido da ética” liderando esquemas de corrupção que fazem seus antecessores parecerem ladrões de galinhas. Mas, é claro, sem perder a pose de paladino da justiça.

Na tarde de 26 de janeiro de 2016, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, tivemos mais uma prova disso. A audiência pública, convocada por deputados estaduais, com a presença do congressista Jair Bolsonaro e de intelectuais de respeito como Percival Puggina, foi interrompida por gritos de guerra de duas dúzias de pessoas identificadas com partidos e grupos de esquerda (UJS [braço infanto-juvenil do PCdoB], PSOL, UNE, UBES et caterva). Na sessão, aberta à assistência e participação de quem o quisesse, bradavam sem parar: “Fascistas não passarão!”

Pois, quem são os fascistas, o que é o fascismo, afinal? Trata-se de uma doutrina que prega a concentração do poder político na mão de um partido ou de uma aliança – exatamente como todos os grupos de esquerda fizeram ou tentaram fazer na História; algo como o que se tentou fazer aqui, através da corrupção, com o Mensalão. O fascismo pressupõe a concentração do poder econômico nas mãos de poucos megaempresários, em conluio com o governo – algo como o que ocorreu no Petrolão. O fascismo exige o controle estatal da vida privada – impossível não lembrar da lei federal que pretende regular como os pais devem educar seus filhos, ou do Marco Civil da Internet.

O fascismo é contrário às ideias de liberdade econômica, civil e individual, defendidas ontem no evento no parlamento gaúcho. Através de suas massas de manobra, usa de força e truculência para silenciar seus adversários. Na Itália ou no Brasil, ontem e hoje, o fascista não dialoga; mete o pé na porta e impossibilita qualquer ação que lhe desagrade. Foi precisamente isso que fizeram os militantes profissionais que ontem interromperam o debate, recusaram-se a dialogar e provocaram a plateia à exaustão. Na boca, gritos ensaiados e agressivos; no bolso, as palavras de Lenin.


*Artigo publicado no jornal Zero Hora, edição de 28 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Malabarismo cultural



Este texto é um convite à reflexão a quem pretende superar a mediocridade reinante; mas quem não o pretende pode ler, é claro – mal não fará.

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Segunda-feira, 11 de janeiro de 2016; entro no Facebook e vejo a ala (digamos) pra-frentex da – vá lá – direita maldizendo o Rodrigo Gurgel (com muitas indiretas, é claro). Vou atrás de saber o motivo. Estarreço-me: o mestre disse que não conhecia o finado do dia, David Bowie. Pronto, a tchurma que acha possível restaurar a alta cultura sem largar de mão a baixa cultura já saiu rasgando as calçolas. Com todo respeito à alma do sujeito (que Deus o tenha), que grande demérito pode haver em não ter conhecimento sobre um artista “pop”? (Ou: "Um travesti que ficou famoso nos anos 80", como bem classificou Hermano Zanotta.)

Não é a primeira vez que vejo choro e ranger de dentes ante a exposição do óbvio: a cultura pop deve ser superada por quem se pretende homem de estudos. E isso não é uma determinação arbitrária, fetichista; é uma simples constatação. Não estou dizendo que não se possa ter gostos e hábitos aquém da estrita alta cultura; mas quem se diz estudioso, fiel à busca da Verdade, deve ao menos – no mínimo! – desejar chegar a um estado em que não se interessará por nada além daquilo que interessa de fato. O problema é o sujeito querer superar a mediocridade, mas não mover-se no sentido de desapegar-se de manifestações culturais medíocres, às quais se deixou amarrar pela corda da afeição pueril (pintada com tintas de intelectualidade).

Será tão difícil assim se desapegar dos símbolos do passado, da infância, da juventude? Vocês não percebem que isso faz parte do problema civilizacional dessa pocilga? Não pode ser tão custoso admitir que a porcaria da cultura pop é, afinal, uma porcaria, mesmo que gostemos de algo dela!

Todavia, além da dificuldade afetiva do apego a símbolos pregressos e incrustados, há um fator crucial nisso tudo: a vaidade. É realmente muito difícil admitir para si mesmo que boa parte daquilo de que se gosta e daquilo que se faz é intelectual e culturalmente paupérrimo. Em vez disso, é muito mais fácil e confortável fazer malabarismos para justificar mongolices de estimação. Aí o sujeito ombreia Star Wars com Ilíada, rock com música clássica, tatuagem e pichação com artes plásticas. Tudo para justificar a si mesmo seus gostos, para não sentir-se mal com estar assistindo a filme de guerrinha de naves em vez de fazer algo realmente útil e edificante. Quer saber? Assista ao filme das navezinhas, ouça seu popizinho, mas largue o malabarismo, não tente, no afã de não sentir-se inferior, ombrear tais mediocridades a artes e artistas grandiosos. Seja honesto consigo mesmo. Assim você aproveitará melhor sua distração medíocre [quase todos temos as nossas] e, quem sabe, com o tempo, abandoná-la-á. É a minha esperança para mim mesmo.

Somos bombardeados com porcaria desde tenra idade, mas é preciso superar isso tudo – ou, ao menos, desejá-lo sinceramente. Quando estou assistindo a Two And a Half Men (uma de minhas mediocridades de estimação) em vez de ler Shakespeare, sei que me estou dando a uma distração boba (por mais divertida que seja), e não fico massageando meu eguinho – "Tudo bem, tudo bem, pensando bem, esta série traz elementos do barroco húngaro e do impressionismo nigeriano... É elevado, afinal de contas...".

Ante tanta argumentação em favor da cultura pop, a impressão que resta é de que o pessoal entende a tão falada decadência cultural do Ocidente como a "queda" das preferências populares do rock para o sertanejo, de Paulo Coelho para Martha Medeiros, de Star Wars para American Pie, de The Big Bang Theory para Malhação. Ora, isso tudo é igualmente medíocre! Não há queda aí, mas escolha entre similares. Aliás, há grandes chances de as opções dos malabaristas culturais serem apenas minimamente superiores às dos demais, mas maximamente afetadas. Darei um exemplo relacionado a um sujeito que certamente é grande fã de Star Wars e David Bowie: Zeca Camargo.

Em junho de 2015, quando morreu o sertanejo Cristiano Araújo, Zeca expôs em seu blog o horror que sentira ao perceber a idolatria do povão pelo recém-finado – idolatria que, segundo o bailarino de dança do ventre e apresentador do Fantástico, só seria merecida por “verdadeiros artistas”, como... Cazuza. Pois é. Após a publicação do texto do “global”, sobreveio uma disputa nas redes sociais: de um lado, o povão e suas preferências simplórias, como o sertanejo de Cristiano Araújo; de outro, gente como Zeca Camargo, que se acha muito superior porque gosta de Cazuza e Legião Urbana.

O caso Zeca Camargo versus fãs de Cristiano Araújo bem expôs que a ​divisão cultural da sociedade brasileira, conforme suas preferências, é representada (não resumida) pelos seguintes tipos e categorias:

Novelas X Séries
A Praça é Nossa X Porta dos Fundos
Tiririca X Gregório Duvivier
Sertanejo X Rock/MPB
Jornais sensacionalistas de $1,00 X Superinteressante/Galileu
Livros de auto-ajuda X Chico Buarque
Fim-de-semana na praia X Turismo étnico na Bolívia ou mochilão na Europa
Xis Bacon a $10,00 X Thai food, 100g a R$ 200,00


Ora, minha gente, tudo aí é igualmente baixíssima cultura (exceto xis bacon); por isso, a briga é patética. É a luta da "cultura" popular contra a "cultura" classe média-alta-brasileira-com-grana-mas-sem-erudição, adepta da eco-bag, aplaudidora de pôr-do-sol, "Uiuiui, Bruno & Marrone, credo! Eu ouço Cazuza e David Bowie, sou moito culto". 

A diferença é que a turma da primeira coluna pelo menos não tem afetação, pose, arrogância de superioridade – e ainda lhe sobra bom humor e autenticidade. Voto na coluna 1 (à exceção das novelas e apesar de apreciar algumas séries) porque, se é para apreciar a mediocridade, não pode haver dúvidas na escolha entre futebol/churrascão/cervejada/Molejão VERSUS cinema alternativo/gourmet food/suco detox/Cazuza. 

De uma forma ou de outra, poucas preferências são tão abjetas quanto a do malabarismo cultural.