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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

OS INSUPORTO-ALEGRENSES

Bráulio Pelegrini Escobar, motorista do Uber espancado por taxistas, em 26/11/15.
"O Uber achou que Porto Alegre era terra de ninguém. Não é!", disse Fortunati.
Nisso o prefeito tem razão: Porto Alegre não é terra de ninguém; é terra de filhos da puta.


Porto Alegre parece ser a menos gaúcha das cidades gaúchas. Parte dos habitantes desta paradoxal capital do Rio Grande sofre de um mal pouco recorrente no restante do estado: o mal da superficialidade sentimental, agravado por muita suscetibilidade. Analisando certas reações, a impressão é de que se trata de uma minoria de porto-alegrenses; mas uma minoria influente, em certa medida organizada, com acesso a rotativas e microfones, ao ponto de determinar os rumos da cidade. Falo dos insuporto-alegrenses.
Eles definem seus posicionamentos com base em impressões apressadas, apegadas às aparências. Por exemplo: não querem a revitalização (que chamam de “exploração”) da orla do Guaíba, na região do Cais Mauá. “O cais deve ser do povo! Fora privatização!”, bradam, apegando-se à fachada da questão. Ignoram que a orla como um todo só é utilizada pelo povo onde a tão mal-afamada iniciativa privada pôde intervir, na área do Gasômetro. Onde a orla é supostamente de todos, ela está abandonada, descuidada – e não pode ser aproveitada por ninguém.
Também, recusam o cercamento do Parque Farroupilha (Redenção) e seu fechamento à noite, porque, dizem, privará o acesso da população. Ora, tente passear pela Redenção após o anoitecer e a realidade lhe oprimirá mais do que qualquer cerca o faria. O parque já é naturalmente fechado à população à noite! Quem é obrigado a tangenciá-lo o faz às pressas, com muito medo. Cercas assustam, revelam nossa falta de segurança, nossa exposição à bandidagem; mas o que importa é que impedirão a utilização do local como reduto de delinquentes. Ponto. Faltam análises objetivas e sobram reações epidérmicas.
Foi assim quando da expansão do Hospital de Clínicas. Os insuporto-alegrenses se opuseram ao aparentemente terrível fato de que árvores dariam lugar a construções. Novamente, ficaram na superfície do problema, desconsiderando o mérito de que aqueles 10% da vegetação do terreno seriam replantados em outra área e dariam lugar a edificações que triplicariam a emergência do hospital e melhorariam o atendimento à população.
E o Uber? Com inovação tecnológica e oferecimento de boas possibilidades de locomoção aos cidadãos, obviamente o serviço já é combatido pelo poder público e pela vanguarda do atraso que conforma boa porção de nossa imprensa e de nossa – digamos – intelectualidade. Que essa gente seja contra o Uber, não pode haver surpresa. Mas chama a atenção que até entre os insuporto-alegrenses de sempre há quem seja a favor do serviço e condene a proibição imposta pelo Município e as reações truculentas dos taxistas.
Pois saibam, caros insuporto-alegrenses, que vocês têm enorme culpa por essa situação. Vocês, que abraçam meia dúzia de árvores (que seriam replantadas) mas viram as costas a pessoas que sofrem em filas de hospitais, vocês que não querem que se mexa nos redutos da bandidagem, vocês que enaltecem a “coragem” dos covardes dos Black Blocs e achincalham as famílias que vão às ruas pedir o fim dos desmandos do PT, vocês que se apressam em condenar policiais por qualquer ação que vá além da submissão aos marginais, vocês devem limitar-se a calar suas bocas e a babar em suas gravatas.
Não me surpreendo com o posicionamento de vocês. Conhecidos também como “SOCIALISTAS DE IPHONE”, normalmente defendem todo tipo de atraso e retrocesso mas são a favor de avanços e benesses que lhes beneficiam. Vocês são a favor do desarmamento, mas não abrem mão de seguranças particulares em seus condomínios; amam Fidel Castro, mas não deixam de ter quantas refeições fartas por dia quiserem; idolatram Hugo Chávez, mas não deixam de usar papel higiênico (admiram Lula, mas não perderam a virgindade com cabritas...). Vocês vivem de criticar a classe média e o empresariado, fazendo de conta que não são esses “opressores” que sustentam vocês, seja comprando as porcarias de seus jornais, seja com os impostos que pagam os salários dos funcionários públicos e professores universitários (os três grupos que mais fornecem integrantes ao insuportoalegrismo).
Se Porto Alegre é esse gigantesco balde de caranguejos, em que um puxa outro para baixo, em que não se evolui um centímetro em questões fundamentais, em que ser progressista é colocar as tetas de fora na Redenção e fumar maconha na universidade, em que falar em desenvolvimento social a partir do desenvolvimento econômico é um crime, se Porto Alegre é esta pequena Havana (sem o consolo do Caribe, mas com o reservatório de Nescau do Guaíba), a culpa é de vocês. Por anos, vocês pavimentaram a estrada que levou os vereadores a proibir o Uber, os taxistas a perseguir quem presta o serviço e o prefeito Fortunatti (um petista tão petista que saiu do PT motivado por vaidade) a capitanear a horda de ludistas.

A verdade é que, do Guaíba à Redenção, das cercas às árvores, os insuporto-alegrenses e sua superficialidade politicamente correta deixam nossa cidade cada vez menos gaúcha, mais insuportável e longe, muito longe, de ser alegre.

Realmente, Porto Alegre é demais!

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Divirta-se com moderação


No Facebook, meu amigo Bruno Dornelles​ chama atenção para o absurdo de que há apenas mil confirmados na página do protesto anti-PT do dia 15/11/15, enquanto mais de 15 mil pessoas em menos de uma semana já registraram sua disposição para brincar num toboágua gigante que será instalado numa das principais avenidas de Porto Alegre. É patético, de fato. Mas não imaginemos que recorremos mais ao brinquedo do que ao protesto porque estamos fartos da situação do país. Pelo contrário! A situação é terrível porque nos recusamos, há décadas, a sair do parquinho. Não confundamos causa e efeito.

*** 

Você sabe que é fascismo? Em linhas gerais, é a ocorrência combinada de
(I) concentração do poder político nas mãos de um partido, uma aliança ou arranjo político;
(II) concentração do poder econômico nas mãos de um círculo diminuto de agentes econômicos influentes, em conluio com o poder político;
(III) uniformização ideológica da sociedade, sobretudo a partir da centralização das diretrizes educacionais;
(IV) controle estatal da vida privada.
Pois, não é essa exatamente a situação do Brasil (para dar alguns poucos exemplos)
(I) do Mensalão e dos acordões (Renan Calheiros, Eduardo Cunha etc.),
(II) da Odebrecht, da Engevix, da OAS et caterva,
(III) do MEC, do Enem, da padronização medíocre da grande mídia
e (IV) da Lei das Palmadas (que controla como educamos), do Humaniza Redes (que controla o que dizemos) e do Marco Civil da Internet (que controla como nos manifestamos)?

Que faremos quanto a isso? Em Porto Alegre, escorregaremos no toboágua.
No evento criado no Facebook para chamar a mais uma manifestação contra o PT e seus asseclas, há pouco mais de mil pessoas inscritas; já na página do toboágua gigante que será instalado em uma avenida de Porto Alegre duas semanas depois já há mais de 15 mil interessados. É, pois, esse espírito permanentemente imaturo, leviano, que se recusa a situar-se na realidade que nos está levando para o fundo do poço. Sobre isso, um amigo me disse:

“Quero ver como essa geração mimada com pet shop, sushi e Punta Cana vai sobreviver daqui a 10 anos. Metade do Brasil vai se matar.”

De fato, nossa geração, que troca o estímulo da cafeína pelo estupidificação da maconha, tem-se esforçado em amolecer as nádegas e fortalecer a tibieza. Não sabemos lidar com reveses mínimos, fugimos dos problemas reais e refugiamo-nos em frivolidades. As principais atividades do jovem-adulto contemporâneo não são más per se; o problema é não fazer nada além disso. O problema é justamente transformar essas boas atividades em atividades principais, despendendo todo tempo e dinheiro tão-somente em, por exemplo, cuidar de animazinhos, divertir-se com as badalações do momento e fazer turismo. 
Quase toda a gente se tem ocupado em ser desocupada. E a desocupação aqui é intelectual, moral e de atitude. Digo isso porque o alerta vale não apenas para as diversões, mas para as obrigações também – o trabalho, por exemplo. Em geral, o trabalho é visto como um sacrifício quase sem sentido, quase insuportável, cujo único sentido (e só por isso se o suporta) é financiar divertimentos. Nesse entrementes, enquanto nos estupidificamos, uma minoria cada vez mais hegemônica política e culturalmente subverte as bases do direito de propriedade, da liberdade individual e do Estado Democrático de Direito, sobre as quais nossa civilização se firmou.
Não, "brincar e ser feliz", "permitir-se", nada disso é mau em si. O problema é quando nos limitamos a isso. O escritor inglês GK Chesterton, lá no início do século XX, como que olhando para o Brasil de hoje, disse que "A nação que não tem nada além de seus divertimentos não se divertirá por muito tempo". Pois, notaram que nós, brasileiros, somente nos divertimos? E que a diversão está acabando?
Enquanto considerável parcela de nossa geração torra sua vida em fugas, uma porção mínima, porém articulada e ativa, aproveita-se para conduzir as grandes decisões conforme suas ânsias, seus ressentimentos e suas estupidezes. O Mensalão e o Petrolão nossos de cada dia são engendrados enquanto escorregamos no toboágua.
É bem verdade que em 2015 houve um despertar, que as pessoas, em geral, estão mais atentas aos desmandos governamentais. Contudo, esse despertar está atrasado em pelo menos dez anos. O Mensalão deveria ter causado manifestações tão ou mais grandiosas do que as deste ano. Não há diferença substancial entre o Mensalão e o Petrolão – são, ambos, arranjos político-econômicos em favor de um projeto de poder. Acontece que o Brasil da época em que o Governo Federal do “partido da ética” começou a comprar de congressistas ia economicamente bem, graças à manutenção das políticas econômicas do governo anterior e, sobretudo, em função de um contexto econômico mundial favorável às commodities brasileiras. Pois, esse ambiente de relativo bem-estar econômico e social (além de permitir ao governo abrir as torneiras das políticas populistas, pelo que pagamos hoje) fez com que a população não desse a real importância ao maior escândalo político deste país. 
Atualmente, porque sofremos com cada vez mais intensidade as conseqüências dos anos de populismo petista, acabamos por perceber que a diversão está chegando ao fim. É o mal que vem para o bem. Que essa percepção não se apague e, mais do que isso, leve-nos a moderar lazer e dever, fazendo-nos perceber, por fim, que não há maior divertimento do que atender aos deveres, do que cuidar daquilo que nos diz respeito, do que descer da roda-gigante e colocar os pés na realidade.

PS: há quem prefira o divertimento ao dever porque confia em quem detém o poder e acredita que vai tudo muito bem. A despeito do desserviço, estes nos fazem o favor de ilustrar o que Aristóteles quis dizer quando afirmou que há gente que nasceu para ser escrava (de senhores, de hábitos e até mesmo de pensamentos, idéias e ideologias).