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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Cecil? Quem?

Quando se fala na morte do leão Cecil, no Zimbábue, e na comoção mundial que isso causou, não precisamos refletir muito para perceber a desproporção dessa reação em relação ao descaso generalizado para com a indústria do aborto americana e o genocídio de cristãos em parte da África e da Ásia, para dar apenas dois exemplos.

Mas não é preciso extrapolar muito. Podemos fazer aquilo que os autoproclamados humanistas e defensores dos pobres e oprimidos nunca fazem: escutar os seres humanos, os pobres e os oprimidos.

Os autoproclamados progressistas do mundo todo querem nos salvar de nós mesmos. Por exemplo: dizem defender os pobres dos interesses do capital, quando, no Brasil, um em cada três trabalhadores deseja abrir seu próprio negócio. Ou seja, um terço da população economicamente ativa não quer a defesa de cafetões sindicais, mas quer empreender, participar dos arranjos do capitalismo. E mesmo dentre os outros dois terços, certamente são minoria aqueles que se agradam das interferências sindicalistas. Da mesma forma, os multiculturalistas que sustentam que o Ocidente não deve se meter nas culturas tribais não perguntam para as mulheres que têm suas vaginas mutiladas se elas não gostariam de um pouquinho da “opressão” cristã, intransigente no que diz respeito à defesa da vida humana.

O princípio dos exemplos acima é o mesmo quando se fala em África. O que não faltam são benfeitores querendo proteger a cultura, as raízes tribais africanas, a proximidade do povo de lá com suas origens. Ignoram que tudo que os africanos querem é progresso de verdade, evolução moral, cultural, tecnológica e administrativa. Aliás, quando podem, os africanos se apressam em fugir da vida selvagem, das guerras tribais e da miséria, refugiando-se no regaço da civilização ocidental, com toda sua opressão judaico-cristã e capitalista. Que o diga Goodwell Nzou, conterrâneo do leão Cecil. Doutorando em Biociências pela Wake Forest University (Carolina do Norte), o jovem zimbabuano escreveu ao The New York Times e colocou todos os pingos nos “is” dos “mimimis” progressistas pela morte de Cecil.

Segue minha tradução para o texto de Nzou:


Goodwell Nzou, conterrâneo do leão Cecil.

<< Minha mente estava absorta em uma leitura sobre bioquímica genética quando mensagens de texto e postagens no Facebook me distraíram:

“Sinto muito pelo Cecil.”

“Cecil vivia perto de sua casa no Zimbábue?”

“Cecil? Quem?”, me perguntei. Quando assisti ao noticiário e descobri que as mensagens eram sobre um leão morto por um dentista americano, o garoto da aldeia que há em mim celebrou instintivamente: um leão a menos para ameaçar famílias como a minha.

Meu entusiasmo murchou quando percebi que o caçador estava sendo pintado como o vilão. Experimentei, então, a mais extrema contradição cultural destes cinco anos em que estou estudando nos Estados Unidos.

Será que todos esses americanos que estão assinando petições entendem que os leões realmente matam pessoas? Será que entendem que toda essa conversa de que Cecil era “amado” ou “muito querido” pela população local era exagero da mídia? Será que Jimmy Kimmel [1] se emocionou porque Cecil foi assassinado ou porque o confundiu com o Simba, do Rei Leão?

Na minha aldeia no Zimbábue, cercada por áreas de conservação da vida selvagem, nenhum leão jamais foi amado, ou merecedor de um apelido carinhoso. Eles são objetos de terror.

Quando eu tinha nove anos de idade, um leão solitário rondava aldeias perto de minha casa. Depois que ele matou algumas galinhas e cabras e uma vaca, fomos orientados a ir para a escola em grupos e a parar de brincar na rua. Minhas irmãs não iam mais sozinhas até o rio buscar água ou lavar pratos; minha mãe esperava por meu pai e meus irmãos mais velhos (armados com facões, machados e lanças) para escoltá-la até o mato para buscar lenha.

Uma semana depois, minha mãe reuniu a mim e a nove dos meus irmãos para explicar que seu tio fora atacado, mas escapara, com apenas uma perna machucada. O leão acabou com a vida na aldeia. Ninguém mais se reunia ao redor de fogueiras à noite; ninguém mais se atrevia a passear até a casa de algum vizinho.

Quando o leão foi morto, finalmente, ninguém se importou se seu assassino era alguém da aldeia ou um caçador de troféus branco, se ele foi caçado ou morto ilegalmente. Nós dançamos e cantamos porque vencemos uma das mais temíveis bestas e porque escapamos do pior.

Recentemente, um garoto de 14 anos de idade, em uma aldeia não muito longe da minha, não teve a mesma sorte. Enquanto dormia na lavoura de sua família – como os aldeões fazem para proteger a plantação do pisoteio de hipopótamos, búfalos e elefantes –, foi atacado e morto por um leão.

A morte de Cecil tampouco atraiu a simpatia de zimbabuanos urbanos, apesar de viverem longe do perigo. Muitos inclusive jamais viram um leão, uma vez que safáris são um luxo para a população de um país cujo rendimento médio mensal per capita não passa de 150 dólares.

Não me entendam mal: para os zimbabuanos, animais selvagens têm um significado quase-místico. Pertencemos a clãs, e cada clã tem um totem de animal como um ancestral mitológico. O meu é Nzou, um elefante, e, pela tradição, não posso comer carne de elefante; fazê-lo seria como comer a carne de um parente. Mas nosso respeito por esses animais nunca nos impediu de caçá-los ou de permitir que sejam caçados. (Eu sou familiarizado com animais perigosos; perdi minha perna direita por causa de uma picada de cobra, quando tinha 11 anos.)

A tendência americana [2] de romantizar os animais a quem deram nomes de pessoas e dedicar-lhes um caminhão de hashtags é algo ordinário, e parece um circo absurdo aos meus olhos zimbabuanos. (Na última década, 800 leões foram mortos legalmente, por estrangeiros endinheirados que desembolsaram muita grana para realizar tais proezas.)

A PETA [3] exige que o caçador seja enforcado. Políticos zimbabuanos estão acusando os Estados Unidos de encenar o assassinato de Cecil, como uma manobra para comprometer a imagem de nosso país. E americanos que não saberiam apontar o Zimbábue num mapa estão aplaudindo a exigência nacional de extradição do dentista, ignorando os relatos de que um elefante bebê teria sido abatido para o banquete do último aniversário de nosso presidente.

Nós, zimbabuanos nos perguntamos por que os americanos se importam mais com os animais africanos do que com as pessoas africanas.

Não nos digam o que fazer com nossos animais, pois vocês permitiram que seus pumas fossem praticamente extintos. Não lamentem o desmatamento de nossas florestas, pois vocês transformaram as suas em selvas de pedra.

E, por favor, não me ofereçam condolências por causa de Cecil, a não ser que vocês também lamentem pelos aldeões mortos pelos irmãos de Cecil, pela violência política [4] ou pela fome. >>

***

[1] Jimmy Kimmel, ator e apresentador americano.
[2] Tendência ocidental moderna, podemos afirmar.
[3] PETA, “People for the Ethical Treatment of Animals (PEETA – mais comumente o estilizado PeTA) (em português: Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais) é uma organização não governamental de ambiente fundada em 1980, a qual já conta com mais de 2 milhões de membros e se dedica aos direitos animais” (Wikipedia). A PETA é hoje, na verdade, algo como uma grande corporação do mimimi ambientalista, dedicada a infernizar a vida de quem não comunga de suas opiniões estreitas.

[4] Fatos sobre o Zimbábue, por Alexandre Borges:

É comandado por Robert Mugabe, 91 anos, ditador comunista genocida (perdoem a redundância) que está no poder há 35 anos. Mugabe preside um dos regimes mais corruptos do mundo, mesmo para padrões africanos, e ninguém leva a sério as eleições de araque do país que repetidamente dão vitória a ele. Por ser da etnia "shona", Mugabe não mandou apenas perseguir e exterminar a população branca do país (o que é comemorado por certa esquerda ocidental) mas também 40.000 negros da etnia rival Matabele.

O ditador africano fechou um acordo com o companheiro King-Jong Il em 1980, o que resultou num campo de treinamento de tropas com "tecnologia" genocida nortecoreana. A combinação de um ditador comunista com uma tropa treinada pela Coréia do Norte você pode imaginar.

Ficou famoso por fazer uma reforma agrária em que seu regime torturava e matava os produtores agrícolas, expropriando (ou "coletivizando") suas terras e entregando aos correligionários e amigos, a maioria sem qualquer experiência na área. Resultado: a produção agrícola despencou e o Zimbábue é um dos países com mais famintos e miseráveis do planeta. Mais de 2,2 dos seus 13 milhões de habitantes passam fome. Os companheiros continuam bem alimentados.

O país é conhecido pela pior hiperinflação da história (231.000.000% em 2008). O Zimbábue chegou a imprimir uma nota de 1 trilhão de dólares zimbabuenses. Robert Mugabe é formado em economia pela Universidade de Londres, num curso feito à distância.

O Zimbábue perdeu o controle sobre a AIDS, principal causa das mortes no país, mais até que a violência e a fome.

O regime de Mugabe está em 175º lugar em liberdade econômica no ranking da The Heritage Foundation. É a pior colocação entre os vizinhos e uma das piores do mundo. O direito de propriedade é quase inexistente, o judiciário é subserviente ao regime e é praticamente impossível qualquer atividade econômica sem alguma pilhagem de agentes do governo. Abrir um negócio legalmente leva 400 dias. Seguir todas as regulações do governo inviabiliza qualquer negócio. Importações são complexas e lentas. É o verdadeiro paraíso comunista.

Com leis trabalhistas insanas, típicas de governos de esquerda, muitos trabalhadores, que precisam de licenças governamentais para trabalhar, foram jogados para a informalidade. Grande parte da população está fora do sistema bancário.

Em 1965, quando se tornou independente, o Zimbábue tinha uma das economias mais vibrantes do continente, um setor financeiro moderno e boa infra-estrutura. Nada que um regime comunista não consiga destruir enquanto rouba e empilha cadáveres.

Em 2013, o BNDES (ou seja, seu dinheiro) emprestou US$ 100 milhões ao regime, ou R$ 340 milhões em valores atuais. É um terço de bilhão dos impostos dos brasileiros direto para o bolso de um genocida.

Tirando esses pequenos detalhes, que não chamam atenção do ocidente, voltemos a falar do leão.

Mugabe e Lula - a parceria de sempre entre petistas e ditadores e genocidas.



domingo, 2 de agosto de 2015

Por que não sou liberal. Nem conservador. Nem porcaria nenhuma.



Vivemos um momento novo, um contexto inédito. A esquerda já não reina soberana na cultura nacional. Pessoas identificadas com diversas correntes políticas colocam-se como opositoras do esquerdismo. Mas, afinal, quem somos nós? Sobram incompreensões várias – o que até é normal em uma conjuntura incipiente. Os debates públicos, em redes sociais e mesmo em grupos fechados parecem definir o seguinte: há, do lado direito, o conservadorismo moral e o liberalismo econômico; do lado esquerdo, há o libertarianismo moral e o socialismo econômico; no meio, há o liberalismo moral e econômico. Mas esse aparente arranjo é tão-somente isso, aparente. 

O que escrevo a seguir define o que não somos. O resto é Síndrome do Diagrama de Nolan, na qual o sujeito sente uma irresistível necessidade de encaixotar os posicionamentos políticos e sociais em categorias cartesianas. Quem faz isso (“Veja bem, não sou de direita, sou um liberal na acepção austro-húngara com compreensão antropomoral turco-otomana) já caiu no joguinho marxista de dividir o mundo entre nós e eles e aceita os rótulos vazios e desmoralizantes que lhes são jogados. Na verdade, essa divisão até existe: ou você vive no mundo real, ou orbita gostosamente, ludicamente, oniricamente, no mundo das idéias. E esse mundo de abstração ideológica, quando realizado, bem sabemos (e melhor sabem soviéticos e chineses), é mortal.

***

O verdadeiro conservadorismo não poderia ser chamado de conservadorismo. Não se trata de um ideário, como o são o liberalismo e o socialismo (e.g.), mas de uma percepção acurada do mundo real, do que deu certo e do que deu errado ao longo da História, com a base de uma moralidade sempiterna, de um Direito Natural fundado na Verdade com "v" maiúsculo. Dizer-se conservador, sem atinência a essas ressalvas, é ser qualquer coisa, menos conservador. 

"A política é a arte do possível", diz o conservador: ele pensa nas políticas de Estado como as que intentam preservar a ordem, a justiça e a liberdade.
O ideólogo, ao contrário, pensa na política como um instrumento revolucionário para transformar a sociedade e até mesmo a natureza humana. Em sua marcha para a utopia, o ideólogo é impiedoso.
Russel Kirk, A política da prudência, Capítulo 1

Esse eixo de certo e errado fundador daquilo a que se chama conservadorismo foi percebido em diferentes civilizações, em distintas regiões da Terra e em diversos momentos da História. Não o respeitamos sempre, mas ele segue pétreo, impávido colosso. Isso a que se chama erroneamente de conservadorismo não possui um nome preciso; "realismo" ou "verdadismo", talvez, seriam mais exatos, mas "-ismos" não têm nada a ver com perceber e respeitar a realidade dos fatos. O mesmo se passa com aquilo a que se deu o nome de capitalismo. Novamente, não temos um ideário, um conjunto de idéias abstratas, mas o resultado de uma relação natural, próprio dos seres humanos: a relação de trocas.

Aquilo que chamam de conservadorismo é, na verdade, a defesa da Verdade e da tensão certo-errado como mediadores das relações sociais. É algo que varia superficialmente, que muda de aspecto aqui e ali, mas cujo eixo é sempre o mesmo. É o respeito ao princípio mais básico, sólido e irrefutável que o ser humano já percebeu, o princípio da identidade (A = A). Como num exemplo de CS Lewis, em Cristianismo puro e simples

Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode simplesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer.

Liberalismo e esquerdismo não são opostos a o que se chama conservadorismo; sequer são diferentes, porque não são da mesma categoria, não havendo, portanto, como estabelecer tal comparação. Estes dois e outros são conjuntos de idéias, excelentes subsídios para masturbação intelectual. As boas idéias que têm, aliás, nada mais são do que a defesa da Verdade dos fatos que descrevem, da prevalência do certo sobre o errado.

[...] só nos resta aceitar a existência de um certo e de um errado. As pessoas podem volta e meia se enganar a respeito deles, da mesma forma que às vezes erram numa soma; mas a existência de ambos não depende de gostos pessoais ou de opiniões, da mesma forma que um cálculo errado não invalida a tabuada. CS Lewis

Da mesma forma, aquilo que chamam capitalismo é, na verdade, a prática de uma interação social inescapável, também por respeito ao princípio de identidade e à Verdade. Somos todos imensamente distintos, e cada um de nós é incapaz de prover para si tudo de que necessita. Por isso, temos de fazer trocas. Podemos ordenar isso desta ou daquela forma, mas o fundamento será sempre o mesmo. Inclusive, em todas as vezes em que se tentou aplicar aquele saco de idéias chamado socialismo, as relações de troca resistiram – clandestinamente (entre os indivíduos) e formalmente (entre Estado e cidadãos).

Aquilo a que se chama conservadorismo e capitalismo são realidade naturais dos seres humanos. Já os ideários não passam de emulações, de representações quase-teatrais da percepção e, mormente, da incompreensão dessas realidades. Levar a Filosofia Política e a prática política ao CAMPO DAS IDÉIAS é fugir da realidade, ignorando o apreço pelo conhecimento das coisas como são e as possibilidades de interação real com elas.

Pensemos numa tempestade que se aproxima. O socialista/esquerdista nega a realidade da tempestade. Diz que ela não existe de fato, que é mera construção elitista, burguesa, aristocrática, para alienar e dominar as massas pelo medo. Saem, então, a destruir os abrigos que as outras pessoas construíram para si, além de, é claro, não se prepararem para as intempéries. Já o liberal/libertário concorda que há algo a que chamam por aí de tempestade, mas não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe as propriedades e a origem do fenômeno, motivo pelo qual não compreende de fato aquilo com que se deparará. Crêe que com um bom debate de idéias seja possível impedir a insanidade dos socialistas destruidores de abrigos, além de manter o tempo bom e afastar os raios e a chuva. Para ambos, a tormenta chegará e, impassível, ignorará tanto o esquerdista, que seguirá bramindo que ela não existe, como o liberal, que tentará pará-la com um belo guarda-chuva metafórico de idéias.

Enquanto isso, aquele que chamam de "conservador" e "capitalista" terá (1) admitido a realidade da tempestade, (2) compreendido razoavelmente suas verdades, sua constituição, suas variáveis, sua imanência, antes de querer reformá-la ou negá-la, e (3) terá se preparado devidamente para atravessá-la, com a humildade de quem sabe que não pode ver a existência desde fora (contrapondo-a com idéias) e a altivez de quem entende que há uma realidade anterior, ulterior e imutável ao fenômeno temporal que assola a todos.

À tempestade também se pode chamar “vida real”.

***

Dito isso, para efeitos de classificação, creio que podemos aceitar que sejamos conservadores, que estejamos com Roger Scruton e com o conservadorismo:

Conservadorismo significa encontrar o que você ama e agir para proteger isso. A alternativa é encontrar o que você odeia e tentar destruir. Certamente, a primeira alternativa é um modo melhor de vida do que a segunda.

Mas o que somos integralmente vai muito além disso. Não me ocorre melhor qualificação que essa (conservadores) àquilo que somos, mas me arrisco a dizer que 
somos aqueles que não duvidam de que 1 +1 = 2, nem de que 2 x 2 = 4
Como bem observou CS Lewis, até podemos errar a soma de vez em quando, mas sabemos que ela está lá, disponível ao nosso acesso, bastando-nos capacitarmo-nos ou abrimo-nos a sua Verdade.

O que somos de fato, só Deus sabe. Literalmente.

Porém, [...] basta agora perguntar ao leitor como seria uma moralidade totalmente diferente da que conhecemos. Imagine um país que admirasse aquele que foge do campo de batalha, ou em que um homem se orgulhasse de trair as pessoas que mais lhe fizeram bem. O leitor poderia igualmente imaginar um país em que dois e dois são cinco. Os povos discordaram a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruísta – sua família, seus compatriotas ou todo o gênero humano; mas sempre concordaram em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode simplesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer.
O mais extraordinário, porém, é que sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em seguida este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mesma coisa, ele lhe dirá "Não é justo!" antes que você possa dizer "Cristóvão Colombo". Um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado específico que pretende romper não é um tratado justo. Se os tratados de nada valem, se não existe um certo e um errado – em outras palavras, se não existe uma Lei Natural –, qual a diferença entre um tratado justo e um injusto? Será que, agindo assim, eles não deixam o rabo à mostra e demonstram que, digam o que quiserem, conhecem a Lei Natural tanto quanto qualquer outra pessoa?
Parece, portanto, que só nos resta aceitar a existência de um certo e um errado. As pessoas podem volta e meia se enganar a respeito deles, da mesma forma que às vezes erram numa soma; mas a existência de ambos não depende de gostos pessoais ou de opiniões, da mesma forma que um cálculo errado não invalida a tabuada.
CS Lewis, Cristianismo puro e simples, Livro I.