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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Por que não falar a verdade?



Mentira, engodo, desinformação, confusão etc. conformam as estratégias da esquerda há século e meio. Mundo afora, a reação de parte dos não-esquerdistas, logo depois do atordoamento por lidar com o descaramento do adversário, é tentar imitá-lo, colocando a estratégia política acima da verdade indiscutível.
Olhemos para o Brasil. O PT mente há 30 anos. No meio desse caminho, seus adversários desistiram de defender a realidade. Passaram a fazer de conta que não eram a favor de ações corretas (e.g., austeridade e eficiência nas contas públicas e flexibilização de leis trabalhistas) e começaram a levantar as mesmas bandeiras do adversário mais eloqüente. Quantas vezes vimos o PSDB pintando de azul bandeiras petistas? [Assumo aqui que haja a possibilidade de o PSDB não ser mera linha auxiliar a serviço do PT.] Quantos políticos que sabíamos ser contrários ao desarmamento e outros esquerdismos não "esquerdaram" no Plenário ou aos microfones midiáticos?
Resultado: esquerda esmagadora e culturalmente hegemônica no Ocidente e politicamente poderosa em lugares como o Brasil.
Por que, então, ante tantos fiascos e fracassos, não tentamos simplesmente falar a verdade?
Ao surgimento de uma nova direita no Brasil, com o renascer do liberalismo econômico e do verdadeiro conservadorismo moral, há muita coisa boa, excelentes notícias. Mas uma analisada mais atenta é capaz de revelar quem esteja incorrendo novamente no erro do caminho mais fácil (e ineficaz e burro) de querer apropriar-se de bandeiras esquerdistas, em vez de substituí-las. Isso ocorre, sobretudo, entre os liberais.
A idéia é subverter a subversão da esquerda, usando as cartilhas de estratégia revolucionária (Maquiavel, Antonio Gramsci, Saul Alinsky) contra os próprios revolucionários. Ora, por que precisamos disso se contamos com a realidade dos fatos? Por que, em vez de imitar o PT, estimulando o ressentimento racial ao criar o Tucanafro, o PSDB não se esforçou em esclarecer o povo sobre os males das ditas discriminações positivas (ou ações afirmativas)? E o que dizer da seção "gay" do EPL (Estudantes Pela Liberdade), grupo que defende as liberdades individuais mas dá espaço à bandeira de grupos de pressão? 
Esse tipo de estratégia, à qual não-esquerdistas aderem por pragmatismo ou mesmo de forma induzida e realmente engajada (e esquizofrênica, neste caso) é torpe e afronta diretamente o liberalismo e o conservadorismo, porque é orientada ideologicamente, por idéias abstratas, não pela busca da verdade, da realidade dos fatos. O máximo que deveríamos fazer com as armas de guerra política da esquerda, em geral, seria estudá-las a fundo para entendê-las e combatê-las. Assimilar as bandeiras e as formas do discurso da esquerda, a fim de subverter a subversão, é começar a guerra já vergonhosamente derrotado. 
Ademais, além de possuir a moralidade do esquerdismo (ou seja, nenhuma moralidade), esses gramscismos e alinskyanismos de sinal trocado são absolutamente ineficazes, porque causam
  • desconforto e constrangimento entre quem está do lado dos estrategistas, por causa da artificialidade e da mendacidade do negócio, 
  • confusão no observador neutro ou indeciso 
  • e risos no adversário, que colherá os frutos desses marqueteiros.
Estratégias políticas são, sim, importantíssimas, mas não são fundamentais -- pois o fundamento está na verdade. Basta ver o sucesso que tipos de certa forma toscos como Jair Bolsonaro faz entre o povo. Por quê? Porque simplesmente "dão a real". Escorregam aqui e ali, como qualquer pessoa, mas, em geral, falam aquilo que toca a população, aquilo que o homem comum pensa. [E isso, falar o que o povo pensa, é muito diferente e muito mais honesto do que falar como o povo, como faz Lula, com sua humildade fingida.] E se há algo que a realidade nos mostra é que a sabedoria do homem comum, que vive a vida real, é muito mais valiosa que as masturbações intelectuais de ideólogos de gabinete. Aliás, só quem torce o nariz à simplicidade e à honestidade da verdade de homens comuns e de Bolsonaros são esses intelectualóides e os jornalistas de esquerda, além dos estrategistas cagões de centro e de direita. Estes, a propósito, são os mesmos para os quais dirijo a questão central deste texto: POR QUE NÃO FALAR A VERDADE?
A forma e a retórica são valiosíssimas, sim -- desde que orientadas pela verdade. Se estiverem esvaziadas de conteúdo fático, preenchidas somente com o gás etéreo da estratégia pela estratégia, serão prestadoras de serviço à maldade e ineficazes em seus intentos. Não sou eu, mas a História é quem afirma isso tudo.



segunda-feira, 6 de julho de 2015

Evoluindo para o abismo



Ouvi alguém dizer (talvez uma sexóloga de programa vespertino de TV, não sei) que “hoje em dia é normal que jovens de 12, 13 anos façam sexo” e que “pode ser que um dia deixe de ser assim”, “que volte a ser como antes”, mas que “agora é preciso se adaptar” à situação vigente.
Pois digo que o pensamento humano, a moralidade humana, não é algo alternado, transitório, sucessivo. Não é descrito, como querem os relativistas hodiernos, por algo como o movimento cíclico das estações do ano; não é uma sucessão de alterações de intensidades e estados de aparência, típica das mudanças climáticas. Em vez disso, a melhor metáfora à movimentação da humanidade (stricto sensu) é a evolução da noite para o dia – nessa ordem, porque é a alteração da escuridão para a luminosidade. Não se trata de uma mudança radical, binária; há, também, graduação – mas muito mais sutil do que na metáfora climática do relativismo. Nesta, os valores se alteram ao sabor das condições externas, do contexto. Como corpos submetidos às mudanças meteorológicas, os valores sob a ótica relativista têm suas características alteradas por acidentes e incidências ambientais – mudam de essência e aparência conforme estas ou aquelas condições de temperatura e pressão. Não há, pois, perenidade moral, porque tudo depende de condições várias, aleatórias e de previsibilidade falha, o que redunda não em evolução, mas em uma alternância confusa e caótica de estados. E, assim, a verdade de hoje será a mentira de amanhã e vice-versa.
Contudo, quem se detenha honestamente, sem vícios, à análise da natureza humana sabe que há, sim, uma evolução de fato – perene e indubitável. Para essa análise, sugiro sempre que se siga CS Lewis, no Capítulo 1 de "Cristianismo puro e simples" [1]. A evolução do pensamento humano, da moralidade humana, é uma evolução de luminosidade, da possibilidade de se enxergar aquilo que estava nas trevas da ignorância – a saber: cada ponto, cada artigo daquilo que Lewis chama de Lei Natural ou Lei da Natureza Humana, que diz que "todos os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de uma certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção".
A verdadeira evolução é, pois, a transição das trevas para a luz. O objeto (o valor moral, a Verdade) em si não muda, apenas é revelado; o que muda é a capacidade de percepção de quem o vê. E, diferentemente das estações climáticas relativistas, nas quais todos são submetidos passivamente às inexoráveis intempéries, o dia da Verdade chama cada indivíduo à ação, à resistência, à caminhada. Para a humanidade, esse dia começa após a queda original; ou seja, é um dia que começa na noite, na escuridão. O sujeito, então, deve resistir à paralisia e ao desespero dessas trevas. Conforme tateia o ambiente e identifica aquilo que o cerca, passa a pelo menos vislumbrar os vultos. À medida que o sujeito resiste, ele avança não apenas no tempo, mas também no espaço – a transição se dá com o passar dos segundos, mas se o sujeito não caminhar na direção da luz, parará no tempo. Aos poucos, a luminosidade começa a tomar conta do ambiente, até ser total e atingir o próprio indivíduo. É assim com cada tópico da Lei da Natureza Humana.
Voltando ao mote deste texto: com o fim da escuridão, à ausência de nuvens, vemos que não somos rebanhos irracionais, que não precisamos nos “adaptar” à situação vigente, mas que podemos entender a realidade perene e arbitrar livremente sobre o que fazer com ela. A realidade do caso que motivou esta reflexão é que se trata da expressão de uma confusão tipicamente relativista. Diz-se que, atualmente, é “normal” que na transição da infância para a adolescência se pratique sexo com base em uma evolução aparente: já foi “normal” apenas a partir dos 21, depois a partir dos 18, 17, 15 e, agora, 13, 12 anos de idade. Ora, com base nessa mudança com aparência de evolução, não seria equivocado dizer que logo será “normal” que a sexualidade aflore aos 9, 7, 5 anos de idade. E bem sabemos que não é assim. A aceitação dessa suposta “situação vigente” não é a evolução da ignorância para a verdade; não é sequer a alteração relativista de uma verdade para a outra; é, sim, a obnubilação da verdade desta questão, o apagamento do fato de que não é pela idade que se mede o preparo para o ato sexual, mas por um conjunto de aspectos (físicos, psicológicos, morais), do qual a idade é mero elemento.
Quem diz que “a sociedade evoluiu” porque, por exemplo, agora se faz sexo cada vez mais cedo, já está na situação de confusão psicótica criada pelo estado de volubilidade moral criado pelo relativismo moderno, que [diz que] matou Deus e colocou em seu lugar a vontade egoísta de cada um. Apega-se a um registro (etário, no caso) em nome de uma verdade arrogada, gelationosa, tíbia, relativa, ignorando as variáveis realmente relativas que conformam a Verdade fixa da questão.
Dificilmente viva entre nós quem atingirá a luminosidade total, e nisso não há novidades nem problemas, pois, se (mesmo sabendo que ela é inabarcável por nossa compreensão limitada) vivermos a buscá-la nesta vida, ela nos esperará na Vida luminosa de fato.
Essa busca é dificílima per se, mas é ainda dificultada por algumas intempéries. Após o vislumbre permitido pela luz do dia da Verdade, poderemos vacilar, fraquejar e permitir que nuvens obnubilem a visão, ou que chuvas e trovoadas atordoem nossa percepção. O importante é jamais nos esquecermos de que a Verdade seguirá lá, por detrás das nuvens, ou melhor, por sobre as nuvens, luminosa, pétrea, impávida e colossal, fixa no solo como a mais forte e imponente cruz que a mente humana possa conceber, apenas esperando por que consigamos evoluir até acessá-la.
Já a evolução relativista seguirá sempre a passos largos, rumando ao abismo.
 
<< O cristianismo [a Verdade, em última instância] é a única estrutura que preservou o prazer do paganismo. Poderíamos imaginar crianças brincando na planície de um topo relvoso de alguma ilha elevada no meio do mar. Contanto que houvesse um muro em volta da beira do precipício, elas poderiam entregar-se ao jogo frenético e transformar o lugar na mais barulhenta creche. Mas os muros foram derrubados, deixando desguarnecido o perigo do precipício. As crianças não caíram; mas quando seus amigos voltaram, elas estavam todas amontoadas cheias de terror no centro da ilha; e sua canção já havia cessado. >> GK Chesterton