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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Estupidez extra-classe



Ansiosos por ter um oprimido para chamar de seu e, então, supostamente defendendo-o, galgar prestígio público e vantagens financeiras, há quem insista em dividir a sociedade entre ricos e pobres, brancos e negros, nordestinos e sulistas etc. Dividem para conquistar. E insistem nesse expediente por interesse (como já referido), mau-caratismo e desonestidade intelectual. Caso contrário, não ignorariam o que a realidade lhes mostra cotidianamente: que nossos acertos e erros não resultam de situação financeira ou cor de pele, mas de nossas decisões (influenciadas, é verdade, em maior ou menor grau por nosso contexto, mas não determinados por ele).
Pois, apenas para oferecer um exemplo: a Guarda Municipal de Porto Alegre acaba de dar mais um choque de realidade nessa gente. Com base nas detenções realizadas em 2014, a instituição constatou que os pichadores de prédios e monumentos da cidade são, em sua maioria, jovens adultos de classe alta. Nossos demagogos de plantão ficam atônitos ante uma notícia como essa. Se pudessem, esconderiam tal levantamento, que se ajunta à miríade de casos denunciadores de que a tese desses humanistas que odeiam humanos já nasceu morta, lá no ventre de Karl Marx.
Acostumamo-nos a ver políticos, partidos, entidades, intelectuais e artistas de esquerda nessas tristes e profundas contradições. Dizem-se defensores dos negros, mas agem de forma racista, defendendo cotas raciais (concessão de facilidades [reservas de vagas]em processos de seleção a negros é racismo de mão-dupla: racismo contra o negro, por pressupor que ele precisa de uma vantagem competitiva, e racismo contra o não-negro, por prejudicá-lo na disputa). Da mesma forma, dizem-se defensores dos pobres e oprimidos, mas sustentam que a violência e demais mazelas da sociedade são resultados da pobreza. Ora, não há preconceito maior do que esse, pois, se isso fosse verdade, se a delinqüência adviesse da condição social, como sustentam esquerdistas, todos os pobres seriam delinquentes e nenhum sujeito abastado seria criminoso. Contudo, basta não ignorar a realidade para perceber que a imensa maioria das pessoas de baixa renda é decente, honesta e trabalhadora. E exemplos não faltam de que gozar de uma posição social favorável não é suficiente para evitar a criminalidade – basta olhar para Brasília e para a Penitenciária da Papuda.
A Guarda Municipal registrou também que, em geral, a motivação dos pichadores porto-alegrenses é a autoafirmação. Ou seja, estudar em boas e caras escolas e contar com mesas fartas não bastaram para esses marginais perceberem que não é emporcalhando a cidade que se afirmarão – a não ser que queiram afirmar-se como idiotas. Mais do que rabiscos, esses delinquentes ricos estão expondo para nossa intelectualidade de esquerda que colocar a culpa das imbecilidades humanas tão-somente em questões de classe, no sistema, é equivocado, preconceituoso e estúpido.

Direitos e deveres

Em 19 de janeiro passado, os rodoviários de Porto Alegre protestaram por melhores salários [http://bit.ly/19PnJwb].
A esses dias, o Movimento Passe Livre já quebrava São Paulo em favor de sua causa mesquinha [http://glo.bo/1vS4g2j].
Em 19 de fevereiro, o prefeito de Porto Alegre sancionou o aumento das tarifas, que, além da taxa de incompetência do cartel público-privado instalado, traz em si as gratuidades e isenções e os melhores salários pedidos pelos rodoviários [http://bit.ly/1vnjlOh].

Em 24 de janeiro, a Zero Hora publicou artigo meu sobre a questão e suas nuances.



Está aberta a temporada de caça aos direitos em Porto Alegre. O primeiro passo foi dado por motoristas e cobradores de ônibus, desejosos de melhor remuneração. Nada mais justo – a inflação sufoca a todos. Entretanto, cada direito traz consigo uma proporcional carga de deveres e entra em conflito com outros direitos. O direito de protestar da categoria não deveria sobrepor-se a seu dever profissional nem atrapalhar o direito de ir e vir da população. Já o direito de melhores salários suscita o dever de maiores gastos por parte dos empregadores, o que há de acarretar em aumento das tarifas. E eis que surgem ávidos caçadores de direitos: o movimento (supostamente) estudantil de esquerda.
O iminente reajuste nas passagens dos coletivos municipais levará de volta às ruas grupos munidos de máscaras, bombas caseiras, paus e muita falta de noção. Bloquearão ruas da capital gaúcha e depredarão vitrines – “é por um mundo melhor”, dizem. Lutarão contra o aumento e, sobretudo, pelo passe livre para estudantes, desprezando (por estupidez ou ignorância, ou por ambos os motivos) que esse direito geraria imensos deveres a todo o restante da população. Para alguns não pagarem, todos os demais pagarão muito mais do que deveriam. A conta é simples, mas onerosa para os trabalhadores – justamente aqueles que os manifestantes dizem defender.

Pagamos impostos altíssimos, que elevam nossa expectativa de retorno do poder público. Porque 40% de tudo que produzimos e negociamos são retidos pelos governos, sentimo-nos à vontade para esperar pela providência estatal. É tão justo quanto ineficaz, como se vê em praticamente todos os setores do serviço público (à exceção da Receita, é claro). Mas a saída não é depredar a cidade e impedir que trabalhadores cheguem em casa no fim do dia. Devemos cobrar de governantes e legisladores mais eficiência e menos demagogia. Governos não nos dão nada de graça. Tudo que deles recebemos vêm dos tributos que pagamos. Receber passe livre no transporte coletivo nada mais é do que pagar muito caro para políticos fingirem que estão prestando um serviço gratuito.