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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Quase cem anos de dissimulação. Ou: Gabriel García Márquez - a morte de um mito




Após 87 anos de enganação, foi-se à banha o escritor de uma das obras mais superestimadas da História, Cem anos de solidão, o magnum opus do realismo-mágico – um verdadeiro xaropismo-trágico (com o perdão do infame, mas urgente, trocadilho), que possui nada de bom daquilo que a "mistura" poderia oferecer. Sem a crueza impactante do realismo, sem a grandiosidade do mágico, o que resta é uma colcha de retalhos forçosamente costurados por uma linha que não se prende a uma agulha que, por sua vez, não trespassa os retalhos.
Ademais, como todo bom representante da esquerda-caviar, Gabriel García Márquez vivia a flatular verbo (e em flatus vocis era realmente exímio) em odes à dinastia Castro (à qual serviu como professor universitário e sugador de bagos revolucionários). Contudo – ou melhor dito: como sempre – quando o “bicho pegou”, saiu correndo da ilha-senzala e foi tratar de sua saúde no país minimamente civilizado mais próximo.
Literariamente, García Márquez possuía algum talento – mui limitado, contudo. O abismo entre a excelência que a crítica (a mesma crítica que ignora, e.g., Camilo Castelo Branco e Ortega y Gasset) lhe imputa e o que é possível verificar em seus escritos é constrangedor e quase incompreensível (quase). Trata-se de um entre tantos mitos forjados por um establishment cujo trabalho é sobremaneira facilitado por um exército de meãos ávidos por aderir a qualquer moda que pareça sofisticada.
Politicamente, García Márquez sustentava posições que justificavam o processo de forjamento supracitado – e aqui se compreende a construção desse mito; viveu e morreu sujo com o sangue das mais de cem milhões de vítimas socialismo, sobretudo com o sangue de dezenas de milhares de cubanos.
Que se tenha arrependido a tempo – por aceitar ser a farsa que se lhe fizeram e por acreditar na farsa que sempre acreditou.

O irmão do Gabriel García Márquez revelou que ele sofria de "demência senil" há alguns anos. Juntando com sua demência juvenil e madura, já d'antes conhecida, agora a obra está completa. Hermano Zanotta


terça-feira, 15 de abril de 2014

Apagando fogo com gasolina


Homem se negou a cair nas tentações da mulher e usa gravação para se livrar de prisão
Um vídeo explícito entre um taxista e uma passageira está sendo usado em um julgamento de um caso de 2012. A mulher havia entrado com uma ação contra o homem alegando assédio por parte do motorista.
O vídeo gravado por Hervey Farrel, de 39 anos em seu próprio taxi mostra que ele fora a vítima da questão.
Jennifer Gaubert, de 33 anos, tentou por várias vezes seduzir o motorista enquanto ele a levava até sua casa. O caso ocorreu há dois anos.
[...]
Farrel, de 39 anos, foi preso e passou 27 horas na cadeia como resultado das alegações do advogado. Gaubert afirma que o homem tentou extorquir a mulher pedindo US$ 60 mil para não divulgar o vídeo. Por fim, ele queria apenas US$ 1 mil.
O Ministério Público do Distrito decidiu não apresentar acusações contra Farrel, e, em vez disso, prender Gaubert por supostas falsas alegações. Farrel também entrou com uma ação civil contra Gaubert.
[Clique aqui para ler a notícia completa. Aliás, este foi o único grande portal brasileiro a divulgar o caso – a, ainda assim, fê-lo através de uma sua página periférica.]

Enquanto o Movimento Feminista (composto por uma quase-totalidade de balofas peludas e magrelas craquentas, ressentidas de tudo e irresponsáveis até não mais poderem) choraminga contra uma sociedade supostamente machista e patriarcal, vemos homens sendo afastados de seus filhos e sendo presos sumariamente (como no exemplo acima), após denúncias ainda não-verificadas.
Ou seja, não raro, basta a manifestação da mulher para que o homem seja encarcerado, recebendo uma espécie de condenação, o que deixa evidente a premissa de que o homem está sempre errado, até que prove o contrário (se tiver oportunidade).
A violência contra a mulher existe -- e deve ser combatida. Esse combate há de ser intenso, mas deve evitar, com igual intensidade, o uso de procedimentos revanchistas, de caráter sectário, movidos pelo ressentimento.
Transgredir a justa eqüidade, oferecendo privilégios para uma "classe", a partir do argumento de que outrora esta fora oprimida, só faz dividir a sociedade e alimentar mais ódio.
James Ensor - Squelettes se disputant un hareng-saur, 1891

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Com isso, é impossível não lembrar-me de um dos melhores textos do Olavo de Carvalho – uma raridade, a qual não está em seu site e reproduzo a seguir. Destaco os trechos que se relacionam com o que acabo de argumentar.

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O MILAGRE DA SOLIDÃO
Olavo de Carvalho
Revista Bravo!, nº 13, outubro de 1998. Transcrição de Dan Azevedo

Lima Barreto foi, com Cruz e Sousa e Machado de Assis, um dos meus heróis carlylianos de juventude — “the hero as man of letters” —, o tipo do sujeito que pela força da auto-educação se eleva acima do meio opressivamente burro e se torna um educador de seus opressores.
Que os três fossem pretos era coisa que não me comovia especialmente. A discriminação que você sofre como parte de um grupo tem sempre o contrapeso da solidariedade entre a multidão de coitados: quanto mais o expelem de um grupo, tanto mais você se sente integrado no outro, e sempre resta a esperança coletiva de que os oprimidos de hoje sejam os opressores de amanhã. Ruim, mesmo, é a discriminação que você sofre sozinho, sem o consolo da palavra nós e das ideologias salvadoras, rejeitado, graças ao estima da diferença, mesmo pelos seus companheiros de raça, de religião, de bairro, de geração. Aí você não tem para onde correr. Você é o próprio Cristo na cruz, abandonado por todos, desprovido de semelhantes. Nenhuma ONG vai fazer lobby em seu favor, nenhuma assembléia da Unesco vai denunciar que você é vítima de uma grossa sacanagem, a rainha da Inglaterra não vai estipendiar nenhuma fundação para socorrê-lo, nenhum editorial do The New York Times vai dizer que você é lindo e maravilhoso como o João Pedro Stédile. Para todos os efeitos, você está excluído até mesmo da classe dos discriminados. Você é aquela mancha de meio milímetro no canto de uma foto do Sebastião Salgado.
Só o sujeito que passou por essa situação sabe que existe, no mundo, um tipo de mal que supera tudo o que a mídia denuncia e que, pensando bem, é a raiz da porcaria universal.
Explico-me. O herói do primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, não sofre somente porque é preto e pobre. Ele sofre porque é um sujeito honesto num meio de vigaristas, um autêntico homem de letras num meio de farsantes, um gentleman no meio de carreiristas vorazes e grosseiros. Enquanto preto e pobre, consolava-se olhando a multidão de seus companheiros de infortúnio. Mas quantos semelhantes teria ele nas qualidades excelsas que o destacavam e o isolavam? Quantos irmãos tinha Cristo na cruz? A parte de Isaías que mais dói não é sua inferioridade social: é sua superioridade moral.
Mas Isaías traz ainda a marca do ressentimento racial. Ao escrevê-lo, Lima Barreto sente-se ainda o membro de uma determinada comunidade excluída e fala em nome dela. O livro resvala às vezes para o desabafo direto e, quanto mais se aproxima de uma cópia literal da realidade empírica, mais perde em altitude. O próprio Isaías também é de pouca estatura: ele é melhor que os outros, não mais forte: débil e tímido, reduz-se a uma vítima passiva das circunstâncias, tudo se resolve numa horizontalidade deprimente e, como dizia Antonio Machado, “cuán dificil es / cuando todo baja / no bajar también”!
No romance seguinte, Lima Barreto abdica de toda referência a uma injustiça social presente. O major Quaresma não pertence a nenhum grupo discriminado.
Não tem nenhum handicap que o identifique a esta ou àquela multidão de vítimas. Ele é auto-suficiente na luta pela vida. É mais forte, mais inteligente e mais valente que seu antagonista, o presidente Floriano. Quaresma não é discriminado porque algo lhe falte, mas porque tem força de sobra e a generosidade de querer ajudar a seu povo. Este segundo herói de Lima Barreto adquire assim uma altitude que faltava a Isaías. Ele já não é o personagem de um mero drama social, mas o herói de uma tragédia. Segundo Aristóteles, é essencial que o herói trágico seja um homem poderoso e especial: fora disso, suas desventuras assinalariam apenas uma conjunção acidental de circunstâncias, suprimível e sem o alcance de uma fatalidade cósmica inexplicável.
Mas a derrota do major ainda é parcialmente explicável. Ele é um gênio criativo, mas, convenhamos, suas idéias são bem esquisitas. Ele tem esse resíduo de fraqueza, a meia loucura que o coloca a meio caminho entre o herói e o anti-herói. É por esse flanco que o inimigo consegue feri-lo. A morte de Quaresma nos deprime, mas não nos escandaliza como um absurdo completo. Há nela algo de razoável: o ideal do reformador era incompatível não só com o ambiente mesquinho da República florianista, mas com a realidade tout court.
Esse último pretexto da injustiça é enfim abolido num romance seguinte de Lima Barreto, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Gonzaga é um Policarpo Quaresma sem demência, um Isaías sem o handicap da juventude e da timidez. É um grande homem em toda a extensão da palavra — e sua vida termina no isolamento e na resignação, mas não na derrota. Solitário entre seus livros, o sábio desenganado observa o mundo com um olhar sem ressentimento nem sentimentalismo, cheio de uma compreensão serena que lembra, por mais de um aspecto, a do conselheiro Aires, mas livre daquele resíduo de negativismo schopenhaueriano que foi até o fim a marca registrada de Machado de Assis.
A trilogia barretiana mostra-nos a evolução do ideal do humano do grande escritor, retratada na gradação espiritual dos heróis: o jovem talentoso esmagado pelo mundo, o combatente exaltado e semilouco, o sábio estóico soberano e calmo que permanece de pé enquanto o mundo em torno cai. De personagem a personagem, há uma progressiva depuração e interiorização do ideal, que vai se afastando da situação empírica imediata para se tornar cada vez mais universalmente humano e, na mesma medida, se desliga de todo ressentimento coletivo para encontrar o sentido de uma vida não na vingança, mas no perdão.
O perdão, aqui, não deve ser entendido na acepção beata e sentimental, mas no sentido etimológico de per-donare, completar o dom: o mundo não nos persegue porque é mais forte que nós, mas porque é mais fraco. Ele nos persegue porque algo lhe falta: a sabedoria. Como no verso de Santayana: “O world, thou choosest not the better part!” . Ao superar o ressentimento coletivo, o sábio “escolhe a melhor parte” e é o único que, no fim das contas, é rico o bastante para ter o que dar. Gonzaga não é verdadeiramente derrotado. Expelido do mundo, prossegue a busca da verdade, sempre disposto a compartilhá-la com o discípulo que o procure. “The hero as man of letters”: o oprimido tornou-se educador do mundo opressor.
Juntas, as três obras maiores de Lima Barreto formam um poderoso Bildungsroman — o romance da vitória de uma alma sobre si mesma e, por meio disto, sobre o mundo(*).
A transfiguração do oprimido em benfeitor é um milagre que se repete incessantemente na história. Raramente houve um sábio, um santo, um mestre cujos prodígios de generosidade não brotassem dos extremos de discriminação e solidão padecidos na infância, vencidos e superados pela alquimia da maturidade. É a mensagem final do Rei Lear: “Ripeness is all”.
Mas isso só acontece àqueles que sofreram a discriminação sozinhos, sem ter uma raça, um partido, uma ideologia, uma ONG e fundações internacionais a que se agarrar. Quem tem essas coisas não precisa atravessar o caminho da ascese interior. Pode encontrar alívio e reconforto na ilusão de que o ódio dos vencidos é um sentimento moralmente superior ao orgulho dos vencedores. Pode escapar da solidão fundindo-se na massa vociferante dos companheiros de partido, sonhando morticínios justiceiros que serão, na sua cabecinha imunda, a apoteose do bem. Foi dessa ilusão sangrenta que a leitura da trilogia de Lima Barreto me libertou, mais de trinta anos atrás.
A diferença entre povo opressor e povo oprimido é apenas que são de ocasião, e a “solidariedade com os oprimidos” é apenas o véu ideológico que busca embelezar e legitimar, de antemão, os massacres de amanhã. Esse reconforto “ético” é, no fundo, uma fuga da consciência: todo povo oprimido esconde os lances vergonhosos de sua própria história, para poder acreditar-se melhor que os opressores. Não há um só movimento de libertação e de direitos que não se funde nessa mentira essencial, em que se afiam os espetos de futuros holocaustos. Durante um milênio faraós negros arrancaram sangue do lombo semita, para terminar sendo vendidos como escravos e hoje tentar comover o mundo com seu discurso contra os judeus comerciantes de escravos. Os alemães encontraram na humilhação coletiva a inspiração para perseguir os judeus, e a fumaça do holocausto ainda santifica o fuzil israelense a cada tiro que dispara sobre um palestino armado de pedras.
Reihold Niebuhr assinalava a diferença de nível ético, estrutural e intransponível, entre o indivíduo e a comunidade. Para o indivíduo, o sofrimento pode ser o princípio da sabedoria. Para a comunidade, é o motor da violência, que puxa o carro da história na direção da fornalha ardente em cuja beirada um cartaz anuncia: “Justiça e Paz”. Em face disso, a serenidade de M. J. Gonzaga de Sá é a resposta final aos padecimentos do jovem Isaías Caminha, e o heroísmo semilouco de Policarpo é uma etapa, a ser vencida, no caminho do entendimento.
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(*) É a única obra desse gênero na nossa literatura, se descontarmos a novela de Guimarães Rosa A Hora e Vez de Augusto Matraga, a que o filme de Roberto Santos deu interpretação inversa, injetando-lhe aquela mistura de negativismo brasileiro e marxismo de botequim que torna a redenção de Matraga um gesto inútil por não se enquadrar, como ato isolado, na estratégia geral do Partido.










segunda-feira, 14 de abril de 2014

"Eu era estuprador, mas as plaquinhas me curaram"

Para a esquerda iluminada – que, de dentro dos gabinetes universitários e das editorias de jornais, acha que todo pobre deveria ser um revolucionário babando ressentimento e engajamento – sou um pária, um traidor, posto que, originalmente semi-favelado, advindo de uma zona miserável de uma cidade sacal, decidi ser um legítimo coxinha: trabalhador, estudioso e frequentemente de banho tomado. Mas você, eu e os pobres do mundo todo sabemos que sou nada de mais, apenas mais um, mera parte de uma imensa maioria de desafortunados que ganha a vida honestamente.
Entretanto, alguns desabastados agem conforme as fantasias esquerdistas, de que a violência e a delinqüência são frutos da pobreza. Tenho um e outro amigo da época de escola que representam essa classe tão amada pela esquerda, a dos pobres-violentos. Acabo de conversar com um desses ex-colegas. Ele teve algum êxito na vida bandida e, há algum tempo, mora no Rio de Janeiro. Hoje, contudo, vive uma intensa e triste crise. Veio ao Rio Grande do Sul visitar família e amigos e aceitou conversar e gravar depoimento.

Belas e engajadas feministas, como Lola Aronovich, com suas persuasivas plaquinhas, têm despertado verdadeiros dramas existenciais em homens outrora violentos e machistas.

Leia o impressionante relato de um ex-arrombador, ora em processo de cura, graças às campanhas feministas na web. Segue a transcrição ipsis litteris do que ouvi.


***

O que eu ando fazendo? Olha, vou primeiro dizer o que eu fazia. Eu assaltava à mão armada. De vez em quando, matava. Faz parte. Fazer o quê? Só que aí o governo veio com a Campanha do Desarmamento. Rapaz, aquilo me tirou o sono! Sabe o que é ser metralhado por publicidade oficial te dizendo para entregar tuas armas? Que drama, parceiro! O inferno! Minha consciência foi ficando pesada, meu sono foi ficando leve, não pregava os olhos por mais de dez minutos sem que sonhasse com aquelas publicidades governamentais fortíssimas, persuasivas... Era "Meu filho achou minha arma. Ele só tinha 8 anos de idade" para cá, “Sou da Paz” para lá... Puta que pariu! Cheguei a ajuntar meus ferros para levar na DP... Mas aí eu me dei conta de que não tenho filho. Ha ha! Depois, me dei conta também de que nenhuma arma era minha à vera, era tudo roubado, com a numeração raspada. Ha ha! Foda-se o governo! Foda-se o sistema! Mas, ufa, foi por pouco.
Só que sempre tem um arrombado dum filho da puta desequilibrado pra invadir escolinha e matar geral. Malandro não agüenta um chifre, umas dívidas, uma briga no trabalho e já põe pra fuder. Palhaçada! Por causa de um merda dessas, de um olho-do-cu que passou 11 na bala ali no Realengo, aí o bicho pegou. Pensei que geral viria com campanha pra colocar bandido na cadeia, pra armar professores, pra tocar o puteiro na vida do profissional do achaque. Quem dera! O que veio foi muito pior...
Imagina, parceiro, geral saiu pra rua tudo de branco, com flores brancas, roupas brancas, bandeiras branca, com velas acesas, soltando pombas da paz. Puta merda! Foi demais para mim. Não dormia mais, não comia mais, não fazia mais minha parte pela redistribuição de renda sem pensar naqueles cartazes: "Queremos paz!", "Até quando?", "Chega de violência!". Mas não era só isso. O governo entrou na jogada e prometeu medidas enérgicas. Putz! Aí sim, aí eu tremi. Sabe o Rudimar? O Rudimar deu uma viajada: "Que será que o governo vai fazer? Vai liberar a polícia pra sentar a borracha em nós? Vão deixa a gente apodrecer na cadeia?". Pára, Rudimar! Disse pra ele que ia ser muito pior. E foi! Requentaram a Campanha do Desarmamento, cara! Porra! Fui no psicólogo por anos para me livrar do drama existencial de ter arma enquanto o governo dizia que não era pra ter e, quando tava me recuperando, voltam com isso! Mas tinha mais: parecia que o governo ia proibir a violência! O inferno! Puta que pariu! Por isso tudo aí, o governo pedindo pra largar as armas e geral pedindo paz e dizendo que chega de violência, por isso aí eu parei com o crime. Lógico, né!? Entreguei minhas armas... (Quê? Sim, eram roubadas, mas faz de conta que eram minhas...) Entreguei minhas armas pra polícia e parei de assaltar e matar.
Vai vendo!
Comecei a trabalhar. Loucura, né? Tá, não TRABALHAR, mas é tipo isso. Tu tira onda porque depois que saímos do ginasial tu sempre trabalhou... Mané! Te falei que redistribuir renda era muito mais daora! Bom, comecei com isso aí de trabalhar. Entrei pra uma ONG que divulga o desarmamento. A gente pega as armas que geral entrega e vende pra outros países, tipo Colômbia. Pô, genial, além de ajudar o povo ainda ganhamos uns trocos! Só que minha vida tava incompleta. Sem minhas armas, sem violência, tinha que fazer algo.
Comecei a estuprar. Quer dizer, comecei a estuprar com frequência, antes era só de onda.
Que idéia!
Só pegava as top, gostosonas, cavalas, cheirosas, grã-finas... Que maravilha! Mas, porra, sabe o que aconteceu? As redes sociais... Ah, essas porcarias... Primeiro, começaram a postar fotos dumas gordas peludas com cartazes "Meu corpo minhas regras", "Minha saia curta não é um convite". Putz, aquilo me fez parar para pensar! O corpo delas não era meu, cara! Pô, não tava certo estuprar, então! Mas, tá, era umas pelancudas ridículas, que ficassem com seus corpos e suas regras. A saia curta das gordas não era um convite? Pô, ainda bem! HA HÁ! Continuei metendo as gostosas.
Mas aí esses dias divulgaram uma pesquisa, não entendi bem, era uma pesquisa que dois terços eram mulheres mas que diziam que mulheres que se vestem que nem puta merecem ser estupradas. Puta que pariu! Aí começou o fim da minha festa. Uma cacetada de foto de mulheres, agora as gostosas e as comíveis também, não só as barangas, começaram a colocar um monte de foto na internet com plaquinhas dizendo "EU NÃO MEREÇO SER ESTUPRADA". Cara, me diz, como eu ia suportar isso? Não sei o que seria pior, essas manifestações ou se as mina andassem tudo armada e metessem bala em caralho de estuprador. Porra, cara, porra, isso fica me martelando a cabeça... As mulheres não merecem ser estupradas, as mulheres não merecem ser estupradas, as mulheres não merecem ser estupradas... Tava com isso na mente há dias. O inferno! Mas o negócio esfriou e eu fiquei mais tranquilo até. Continuei estuprando, mas com o caralho a meio-mastro, sem muita empolgação. Até que hoje eu vi isso aqui:
  


E ainda tive que ler:
Paolla Oliveira decidiu pintar apenas uma unha de cada mão com esmalte branco para pedir paz. A atriz postou uma foto em suas redes sociais, na manhã deste sábado, exibindo o visual e, na legenda, explicou seus motivos: “Pintei uma unha de branco por que as mulheres pedem paz! Chega de violência!”
Que merda, cara! Não aguentei! Pô, alguém aguentaria toda essa pressão, toda essa manipulação psicológica, todo esse apelo emocional?
O que eu fiz? Como assim? O que tu faria, cara, o que tu faria com tanto #EuNaoMerecoSerEstuprada, com tanta foto de pelancuda pelada, com iniciativas engajadas e conscientes como essa da atriz? Fiz o óbvio: parei de estuprar! Chega. Elas não merecem. Me dei conta. Finalmente! Essas campanhas aí me fizeram perceber que eu estava errado!
Tu não acredita em mim, né? Tá... Na verdade tentei estuprar mais uma hoje, antes de te encontrar. Mas sabe o que aconteceu? Eu vi que ela tinha as unhas brancas! E mais: ela tinha tatuado na raba #MeuCorpoMinhasRegras. Cara, cara! Eu chorei, sabia? Não consegui fazer nada, só chorar e pedir desculpas por séculos de patriarcado e machismo. Parei! Parei mesmo. Não tem como!**
Mas, e agora? Tiraram todas as emoções da minha vida!
Tá, até poderia voltar a assaltar, mas tá tão fácil, geral tá tão cagada, a polícia não pode encostar em nós... Qual a graça?
O Rudimar veio com uns papos de entrar pra um partido político. Perguntei "Mas isso não é coisa de almofadinha engravatado, Rudimar?" Ele me disse "Que nada, não tem idéia do puteiro que é aquilo lá" e jurou que chefe de boca-de-fumo é aprendiz de correria perto daquele pessoal. Acho que vou ver qual é. Dia 13, às 13 horas, vamo lá. Se pá me filio e já me candidato em outubro. Vamo junto?

** Parágrafo inspirado em comentário do coxinha Bruno Dornelles de Castro