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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Goebbels é fichinha


Fugindo à praxe de nossa imprensa lobotomizada, da qual é eminente representante, a Superinteressante (aqui) apresenta uma lista que expõe líderes socialistas como os maiores genocidas da História (em números absolutos e relativos).

Contudo, para manter-se fiel à idiotia jornalística nacional, a revista incorre em uma estupidez impressionante: em uma atitude brasileiríssima, confunde ação e reação, causa e efeito, informação e opinião. Pouco importa se o faz por confusão derivada de nescidade ou por mau-caratismo deliberado; em qualquer caso, o resultado é igualmente mendaz.



Antes de apresentar a referida lista, com os nomes dos genocidas e seus milhões de mortos, o sr. Roberto Navarro (autor do texto) usa uma chamada bem ao estilo dessas revistas moderninhas: O Bope é fichinha. O problema, é que essa "sacada" mistura conceitos, produzindo, ou reforçando, em leitores medíocres (que representam a maioria dos leitores da publicação) o preconceito contra a polícia.

Se o BOPE mata (efeito), é por reação à ação da bandidagem (causa). Já os genocidas listados tinham o assassínio por prática ordinária, sendo da natureza de seus regimes matar quem a eles se opusesse. Relacionar o expediente extraordinário do BOPE à essência de líderes, regimes e ideologias genocidas demonstra toda a desinformação e/ou toda a indecência do jornalista (que o faz) e da revista (que o publica).

O leitor médio, que nutre suas opiniões com o bolor de nossa grande imprensa, não sendo capaz de distinguir a informação histórica (da lista dos maiores genocidas) e a opinião obscena (do sr. Roberto Navarro, de que o BOPE é comparável aos genocidas), alimenta seu preconceito contra a polícia, cultivado há muito por nossos formadores de opinião.

Joseph Goebbels teria muito a aprender com o "jornalismo" brasileiro.



Superinteressante - BOPE - genocídio - genocidas - socialismo - Pol Pot - Mao Tsé-Tung - Joseph Stalin - jornalismo - Goebbels - desinformação

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Jacintos

Como sói ocorrer nos clássicos da literatura, descrições de tempos idos permanecem atuais em diversos contextos -- a qualquer tempo. É traço dos clássicos literários a abordagem de verdades imanentes à condição humana, que, por isso mesmo, são familiares a leitores de qualquer época. (Talvez seja esse o motivo de nas faculdades de Letras os canônicos serem tão desprezados, em favor de farsantes vários, que sustentam que verdades são relativas e podem ser construídas. Defecar entendimentos mil a partir de lingüistas e literatos da moda é muito mais confortável que entender e aceitar os opressores "1 + 1 = 2" dos grandes mestres da literatura.)

Em A cidade e as serras, Eça de Queiroz assim apresenta uma personagem menor (avô da personagem principal), com a qual, mesmo mais de um século depois, podemos identificar-nos:


<<Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa de D. Galião, descendo uma tarde pela Travessa da Trabuqueta, rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto  -- até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
-- Oh Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?
E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Senhor Infante D. Miguel!
Desde essa tarde amou aquele bom infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e, apesar de tão devoto, o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (a Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu Salvador" [...]. Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Palácio nos Algibebes, a gemer as saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinho. [...] E quando soube que D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro, Jacinto Galião correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente:
-- Também cá não fico! Também cá não fico! 
Não, não queria ficar na terra perversa de onde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos!>>

Como o Jacinto de Eça, a média humana é composta por indivíduos necessitados de atenção e ávidos por notoriedade. Quantas vezes não consideramos sujeito de "bom papo" aquele que não mais que se pôs a ouvir nossas lamúrias? Já não estufamos nossos peitos, triunfantes, após meros cumprimentos de "personalidades"? Que vaidade causar-nos-ia sermos levantados do chão por um futuro rei!

Tal cidadão médio ressente-se de falta de reconhecimento -- e porque é medíocre não percebe que não é reconhecido por não apresentar qualidades dignas de láureas. Quando um sujeito de certa fama (ainda que somente em uma localidade) lhe fala ou toca é como se o mundo finalmente reconhecesse sua importância.

O único amigo que tenho em atividade política, um vereador, disse-me que importa mais na conquista do voto do cidadão, em geral, não a plataforma de intenções e promessas, a orientação política ou o histórico do candidato; segundo sua observação empírica, da qual compartilho, nada angaria mais votos do que olhar no olho do eleitor, apertar-lhe firmemente a mão e ouvir suas demandas -- chamá-lo pelo nome na frente de outrem, então, garante não só um voto, mas um cabo eleitoral voluntário. Em outras palavras, basta uma mínima atenção direta ao eleitor para que ele saia por aí, como um Jacinto levantado do chão, a bendizer seu candidato -- que, de fato, nada fez para provar seus predicados.

Somos, portanto, uma sociedade de Jacintos a adorar Senhores Infantes D. Miguéis que nos ofereçam migalhas de atenção. Sobretudo em eleições municipais (em função da proximidade geográfica dos candidatos), o eleitor escolhe "quem conhece e confia" e refere-se orgulhoso ao candidato com quem estudou ou jogou bola ou de quem foi vizinho. Imensurável mérito.

Ao escolher um gestor ou legislador público, afinidades pessoais deveriam estar entre os últimos requisitos (atrás de capacidade administrativa, conhecimento jurídico, idoneidade etc.) -- ou nem mesmo serem consideradas. Todavia, nós, ingênuos Jacintos, seguimos elegendo simpáticos D. Miguéis para gerir nossos municípios. A diferença é que o D. Miguel de Eça levantou aquele Jacinto do chão.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Indolence, égalité et stupidité


Sem igualdade de propósitos e ações não há igualdade de resultados. E não há canetaço estatal que possa mudar isso.

O atual presidente da França, sr. François Hollande segue a escola do ressentimento marxista e, percebendo que suas teorias não se aplicam à prática, em vez de rever a teoria, procura reformar a realidade e dar sua contribuição para a construção de uma sociedade de molengas amparados pelo Estado - conforme mostra artigo do The Wall Street Journal de 15 de outubro de 2012.

Não é necessário refletir muito para perceber que a medida de proibir a lição de casa -- além de ser uma demagogia das mais baratas e inócuas no que se refere à quixotesca luta contra a desigualdade -- pretende aumentar a hegemonia do Estado na formação integral das pessoas. Se já não bastasse a obrigatoriedade de uma educação estatal (ou privada, mas com diretrizes estatais) completamente ideologizada, a idéia é avançar o domínio sobre a mente infantil em formação, eliminando talvez o único momento em que ela poderia pensar por si própria ou sob uma influência "não-contaminada".


França pretende banir a lição de casa.
Em nome da justiça social e da igualdade, François Hollande quer que todo aprendizado se dê na escola.

François Hollande tem um novo e ousado plano para combater a injustiça social e a desigualdade na França: banir a lição de casa. Na semana passada, ao apresentar suas propostas para a reforma educacional, em Sorbonne, o presidente francês declarou que “se queremos restabelecer a igualdade, [a lição de casa] deve ser feita com o suporte da escola às crianças”.

A proibição de tarefas extra-classe pode colocar a França na vanguarda da moda pedagógica, embora não seja um ato sem precedentes. Recentemente, uma escola fundamental em Maryland substituiu o tema de casa por 30 minutos diários de leitura após as aulas. Uma escola alemã também está testando uma nova forma de eliminação da lição de casa: prolongou as aulas e passou a oferecer atividades extra-curriculares, como esportes e música.

Esses pequenos experimentos objetivam dar mais liberdade aos alunos, de modo que eles se destaquem por conta própria. Mas o sr. Hollande quer exatamente o oposto. Como o ministro da Educação, Vicent Peillon, disse ao Le Monde, o Estado deve “ajudar todos os estudantes em suas tarefas, em vez de abandoná-los aos seus recursos privados, incluindo questões financeiras, como ocorre em vários casos atualmente”. O problema, em outras palavras, não é a lição de casa per se – mas sim que algumas casas são mais propícias ao desenvolvimento de tarefas escolares do que outras.

Aqui começamos a perguntar-nos: os franceses estão perdendo a cabeça? Felizmente, não. De acordo com o Institut Français d'Opinion Publique, mais de dois terços da população é contra a medida. Assim, espera-se que, mesmo na terra da égalité, o Estado não consiga igualar tudo à força. Também é reconfortante saber que a maioria dos franceses acredita que se deve ensinar às crianças que é necessário ter iniciativa e responsabilidade, independente de desculpas ou contingências.

Mr. Hollande, no entanto, segue fora do passo. Na Sorbonne, ele ressaltou que a escola é o lugar onde “a criança se torna o cidadão do futuro”. Talvez, suas idéias sobre lição de casa digam algo sobre que tipo de cidadão do futuro ele deseja ver.


Tradução de Mateus Colombo Mendes.