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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sou brasileiro e não me informo nunca

É desnecessário – e até covardia – citar o fato de que a realidade que envolve o agora presidente Obama frustrou todos os prognósticos de nossos inteligentíssimos formadores de opiniões, que achavam, sabe-se lá por que, que Yes, we can! sabe-se lá o quê.

Segue um texto que na realidade é dois. Mas ambos servem para provar a mesma coisa: nós, além sermos brasileiros, ainda por cima somos mal-informados.

Há um péssimo hábito do qual procuro livrar-me faz algum tempo, sem sucesso absoluto: dar atenção à grande imprensa nacional. Por mais que eu tente e me policie, não raro me pego dando uma espiada em uma Zero Hora ou em uma Folha, ou ouvindo algum noticiário da Gaúcha, ou, ainda (meu masoquismo informativo não tem limites) assistindo a um telejornal supostamente culto da TV Cultura.
Toda a grande mídia brasileira resume-se, com raríssimas exceções, a centrais de reproduções (incompletas e enviesadas) de notícias das agências internacionais. E ainda o fazem com uma inexatidão flagrantemente mal-intencionada (para quem quiser flagrar, óbvio).

Utilizarei um exemplo bem didático para fazer-me entender: a eleição de Barack Hussein Obama. Todo o Ocidente aderiu ao obamismo. O Brasil, evidentemente, não ficaria para trás. Todos torciam pela eleição de Obama. Nas ruas de São Paulo, Porto Alegre, Novo Hamburgo, pessoas trajavam camisetas com a foto dele. Na internet, os blogueiros exaltavam entusiasmados sua candidatura. E o mais incrível de tudo isso: todas essas pessoas (talvez você esteja entre elas), influenciadas pelas notícias no mais puro estilo CTRL+C/CTRL+V de nossa mídia, jamais se perguntaram e jamais desconfiaram do porquê de haver aderido à obamamania.

Pela primeira vez na história dos EUA um presidente elegeu-se com base tão somente em seu potencial, naquilo que ele dizia e parecia poder fazer (no Brasil essa prática já é corriqueira). Sua história anterior às eleições presidenciais era totalmente medíocre e um tanto (significativo) obscura. Medíocre porque só o que se sabe de sua atuação como Senador (cargo que ocupava até candidatar-se à presidência) é de sua exímia capacidade para angariar fundos para ONGs esquerdistas e do apoio que ofereceu ao genocida Raila Odinga, seu parente, para conquistar o poder no Quênia. Obscuro porque quando chegou ao público a declaração de sua avó de que ele havia nascido no Quênia, logo surgiu uma cópia eletrônica de uma suposta certidão sua, afirmando que Barack Hussein Obama nascera no Hawaii. Esse caso de uma provável e gravíssima fraude (é vedado a estrangeiros concorrer à presidência dos EUA), quando noticiado no Brasil, SE noticiado, apareceu em formato diminuto nos jornais e sites de notícia, praticamente nulo se comparado às páginas e mais páginas de bajulação obâmica made in Reuters, CNN e Le Monde Diplomatique.

É desnecessário – e até covardia – citar o fato de que a realidade que envolve o agora presidente Obama frustrou todos os prognósticos de nossos inteligentíssimos formadores de opiniões, que achavam, sabe-se lá por que, que Yes, we can! sabe-se lá o quê.


Durante o período que antecedeu a eleição de Barack Hussein, vi as opiniões mais respeitadas do Brasil (como os gabaritadíssimos apresentadores do CQC – vejam a que ponto chegamos) fazerem festa e jogarem confete para um indivíduo cujas qualidades não passavam de suposições, baseadas em seu carisma, em sua figura de líder descolado e na simbologia que envolvia a eleição de um negro – como se a cor do presidente influenciasse na sua capacidade administrativa (Aliás, seria racismo contra o candidato branco achar que Obama seria um grande governante só porque é negro? “Claro que não!”, gritam as ONGs...  Só seria racismo se fosse o contrário. Não é mesmo?) Suposições essas que não se confirmaram: atualmente, até sua base aliada posiciona-se contrariamente às suas ações (como a reforma no sistema de saúde).

Percebam que nada disso foi abordado na cobertura jornalística brasileira das últimas eleições presidenciais americanas. Mas até hoje sabemos tudo sobre os Yes, we can de Obama (We can o quê!?) e os modelitos fashions de sua senhora, Michelle.

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Ocorreu-me falar da mendacidade de nossa imprensa hoje à tarde, ao ser “presenteado” com um comentário de Túlio Milman na Rádio Gaúcha (presente enviado pelos gregos, como penitência por eu haver ousado tentar ouvir rádio novamente). Sobre a convulsão política que ora acontece na Líbia pela deposição do presidente Muammar al-Khadafi, o jornalista disse, ironicamente, mais ou menos isso:

<< O que fica dessa confusão que está acontecendo na Líbia é que deve ser muito bom estar no poder! Só isso para justificar o tal de Kahdafi estar a mais de quarenta anos no governo e não querer sair de jeito nenhum. >>

Esse comentário, aparentemente inocente e, para nossa conjuntura, até realista, denota toda a desinformação, toda a inépcia e todo o despreparo que se fazem regra no jornalismo brasileiro. É dever do jornalista passar a informação completa e os fatos verídicos a seu público. E este é outro exemplo (assim como a cobertura da eleição de Obama) de como o brasileiro, no que depender de seus canais de comunicação, está deveras mal-informado.

Se o senhor Túlio Milman fizesse a lição de casa antes de sair comentando como se fosse um grande entendedor da matéria, não se surpreenderia com o fato de Muammar al-Khadafi estar a mais de quatro décadas no poder e não querer largá-lo. Khadafi é o autoproclamado Líder Fraternal e Guia da Revolução da Grande República Socialista Popular Árabe da Líbia. Se fossem minimamente atentos, os senhores Milman, Arnaldo Jabor, Milton Hatoum e todos aqueles que se pretendem jornalistas ou que acreditam que exercem a atividade com correção achariam normalíssima a sede de poder de Muammar al-Khadafi, por motivos muito mais complexos que o gosto pelo podre. Basta olhar para o nome do Estado, batizado pelo próprio genocida e por seus colegas após a Revolução de 1969. Quanto ao caráter autoritário e totalitarista do socialismo não poderia restar dúvidas ao senhor Túlio Milman. Ele deve saber muito bem que essa ideologia já matou, desde o início do século XX, e segue matando, mais de cem milhões de pessoas no mundo todo em nome de seu projeto (que pode-se resumir em “Um novo mundo possível para todos – mesmo que seja necessário matar todos que se oponham ao nosso novo mundo”). Já a questão árabe é um pouco mais complicada – mas é dever de um analista sério, que se propõe a asseverar sobre o tema, entender do que está falando. Ajudemos o senhor Milman.

Não adianta querer analisar o mundo islâmico apenas politicamente – a questão é religiosa. Dentre as diversas interpretações do Corão, livro sagrado e compêndio de leis do islamismo, guia de comportamento moral e ético dos árabes, vale a sustentada pela Comunidade dos Sábios. E esta sustenta que quem está no poder está lá porque Alá quis assim. Portanto, até que se prove o contrário, quem chegou ao poder é merecedor dele – até que alguém o tire de lá (e que, por essa lógica, mesmo sendo um opositor, também será merecedor do poder). Para o islã, todo governo é legítimo desde que ele exista, pois, se ele existe é porque Alá o quis. E é assim há mais de mil anos. Isso significa que, assim que derrubarem Khadafi, quem quer que tome o seu lugar provavelmente será também um ditador, pois se sentirá investido da autorização, da anuência superior de Alá para governar por muitos e muitos anos. Este é o resumo que faço das informações dadas pelo professor Olavo de Carvalho em seu programa semanal [para quem quer informação de verdade: http://www.blogtalkradio.com/olavo].

De posse dessas simples informações, o senhor Túlio Milman não defecaria pela boca. Como defecou pelos dedos o senhor Milton Hatoum, que acha uma maravilha democrática o levante popular que ocorreu no Egito, ignorando completamente, em artigo recente [http://twixar.com/nbXth], que, enquanto a lei dos países árabes for definida a partir da Comunidade dos Sábios e de sua interpretação do Corão, a democracia é inviável. E, no caso da Líbia, é duplamente inviável – se é que isso é possível: tanto pelo socialismo de seus governantes como pelas leis islâmicas.

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Qualquer indivíduo que escolher qualquer fato noticiado no Brasil e pesquisá-lo a fundo (às vezes não precisa tanto), em fontes confiáveis, concluirá que, junto com seu jornal, deveria comprar um nariz de palhaço.

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